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23 de dezembro de 2011

Lewis e Tolkien sobre os mitos.

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Nunca coloquei vídeos aqui. Mas diante do Natal que se avizinha, esse diálogo me pareceu pertinente em nosso blog.

Obs.: Para ativar a legenda em português, basta acionar a opção CC que se encontra na parte inferior direita do player do vídeo.

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3 de outubro de 2011

Esforço, Sucesso e Role Playing.

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Tem um tempo que não escrevo em nenhum blog. Estava ocupado demais com o processo de qualificação do meu doutorado: Paidéia mitopoética – a formação do homem em Tolkien. O exame foi em setembro, mês passado, a qualificação foi um lento processo torturante de exibição de falhas, contradições e melhorias do meu projeto e dos capítulos que já escrevi. Passei, fui aprovado sem objeções ao eixo estrutural da tese. Tenho até agosto de 2012 para entregar os volumes finais.


Quinze dias depois, já me sinto à vontade de comentar novamente minha vida de blogueiro. Claro que me sinto com um passo importante ao fechamento do doutorado e uma estabilização profissional importante na minha carreira e, portanto, mais segurança para minha mulher, filha e futuros projetos.


Claro que só pelo título dá pra inferir a importância da minha experiência com Role Playing para o tema escolhido para o doutorado. Já tendo desenvolvido minha dissertação de mestrado sobre Tolkien, decidi continuar minha pesquisa. A marca que o Role Playing deixa naqueles que aprofundam verdadeiramente em seus temas não é facilmente apagada.


Nesses devaneios, fiquei pensando no que é o sucesso no Role Playing. Atualmente, a maior parte das pesquisas sobre RPG e educação se preocupa em detectar metodologias e ferramentas de transmissão de conteúdos conceituais (história, física, biologia, geografia, matemática, língua portuguesa) a partir do Role Playing para aplicar em sala de aula no ensino fundamental. Essa linha é fundamental e um grande espaço de reflexão sobre Role Playing foi conquistado na academia por causa disso. Todo mérito e incentivo aos bravos pesquisadores que são comprometidos com sua própria batalha.



Todavia, essa pesquisa não me interessa fazer. Talvez porque sendo professor de escola pública de história no ensino médio e fundamental, embora esteja afastado, e casado com uma professora de ciências para o ensino fundamental, seja um pouco cético e desiludido nas possibilidades concretas do uso do Role playing, e qualquer outra ferramenta para apenas transmissão de conteúdo, na escola pública.



Eu penso que o problema é a educação não apenas técnica ou instrumental. O problema é a questão moral, dos valores e virtudes. Sei que corro risco de ser imediatamente identificado como o fundamentalista, autoritário, nazista e inquisitorial (o raciocínio raso e preconceituoso sempre funciona com associações imediatas e irracionais), mas insisto que essa preocupação e reflexão sobre aquilo que dá sentido à vida e aquilo que fundamenta um projeto de convivência humana e felicidade é a principal questão da educação de hoje.



E não apenas para crianças e adolescentes. Mas também para jovens e adultos. Como professor universitário, vejo o quanto isso falta nos cursos superiores. Apenas algumas aulas básicas de comportamento e cultura organizacional, adestrando os ingressantes no mercado de trabalho ou aqueles que buscam reciclagem a pensar que crenças e valores são apenas opiniões culturais variáveis, sem nenhum tipo de fundamento mais universal e consistente, sendo apenas verniz para cobrir a ferrugem do sistema capitalista, cujo fundamento é inequivocamente o lucro, e consequentemente a única regra moral absoluta é a competição e a imposição e humilhação do adversário no mercado.



Essa conversa me dá sono. Primeiro porque é evidente a dificuldade da vida. As manifestações dos sem-ipad em Londres e em Madrid mostram o quanto a juventude contemporânea não tem projeto político revolucionário nem grande ideais. Eles querem dinheiro para consumir. Isso seria ótimo se em vez de exigirem, como meninos mimados, do paizão Estado seus direitos de consumo, arregaçassem as mangas e fossem construir o país em que estão.


Segundo porque nenhum grande empresário ou alguém que se realiza profissionalmente pode ser um imbecil que não parou em nenhum momento para direcionar sua vida, pensar em seus valores e fomentar uma investigação intelectual, ainda que não acadêmica, sobre o significado de sua vida. O problema é que hoje são poucos os que mantêm essa consciência, e a grande maioria acaba virando escravo dos projetos de felicidade das propagandas de cerveja, das novelas de televisão, das griffes alternativas de rock, dos projetos de religião pasteurizadas, da mercantilização que se transformou a felicidade hoje.


Penso que o Role Playing é uma alternativa que subverte esse sistema alienador e anestesiador. Porque ele produz, ele cria, ele faz com que o esforço da imaginação se instaure tanto na elaboração de uma aventura quanto na construção de um personagem, na aprendizagem de um sistema e no mergulho fantástico de uma ambientação. Diferente do padrão da sociedade de consumo, o Role Playing dialoga com uma tradição ancestral, primeva da humanidade, dos mitos sagrados, dos textos religiosos, da busca mística, da investigação filosófica metafísica, da arte poética trágica, épica e cavaleiresca, do drama existencial e do anseio da verdade.


Parei de jogar RPG em 2005, por uma série de razões, e só voltei a jogar porque em 2009, quando me preparava para casar, fui a uma festa, meio live action meio catarse maluca, que amigos de décadas preparavam, aos moldes dos antigos rituais do Lobisomem: o Apocalipse. Essas festas, os caern, eram freqüentes nos finais dos anos 1990 e início dos anos 2000. Nelas, além de doses generosas de bebida alcoólica e banquetes medievais, eram celebrados valores como amizade, confiança, esperança e alegria, assim como virtudes como coragem, força e sabedoria.


De fato, todos os Role Playing possuem essa matriz da moralidade, ainda que debatida, relativizada, virada do avesso, a questão moral é parte integrante do Role Playing. Tomar decisões diante de momentos críticos exige uma formulação moral, mesmo que se não prévia, posterior a essas decisões.


Quando voltei do caern em 2009, montei um jogo com minha mulher e alguns amigos. Fizemos um blog (www.rpg-mago.blogspot). Está entre os melhores jogos que já narrei na minha vida.


Outro fator que me fez pensar no que é sucesso foi o blog www.jovemnerd.com.br. Descobri esse blog esse ano graças a uma lista de jogos de computador de um clube ao qual participei nos mesmos fins dos anos 1990 e início dos anos 2000. Esse pessoal fez uma lista de discussão e conversa, e conheci o grupo do jovem nerd.


O que mais me impressionou no blog foi a capacidade dos autores de construírem sua vida sob a identidade do nerd. Claro que colocaram no mercado e ganharam muito dinheiro com isso. Mas o que mais me impressiona é a capacidade que eles tiveram de ganhar dinheiro afirmando uma identidade, e não apenas sendo tragado por ela. São essas as iniciativas mercadológicas que funcionam. Por isso que a sociedade de mercado vai pra frente. Não são apenas revendedores de franquia conceitual sem nenhuma relação com o produto que vendem. Eles produzem conteúdo, são como artesãos medievais que estabelecem vínculos com seus clientes e constroem sua vida em cima daquilo que decidiram fazem em nome de sua felicidade.



O trabalho não é apenas um lento e penoso tempo de espera para finalmente chegar o salário ou acabar o dia e então ter o mísero tempo de consumo, reduzido e frustrante. É o próprio trabalho que é a realização, o consumo é a cereja do bolo da felicidade. E o mais fascinante é que o grupo que mantém o blog é como um grupo de Role Playing. Todos os produtos do grupo transpiram os valores de amizade, cumplicidade e confiança. Uma verdadeira família, com direito a ofensas ocasionais e reconciliações recíprocas. Ver um nerdcast ou nerdoffice ou qualquer produção é relembrar o grupo de role playing da adolescência, onde esses mesmos valores pareciam concretos e indeléveis. Construir uma vida e uma fonte de renda fundamentado nesses valores é um sonho para muitos rpgistas.



Hoje acompanho daqui de São Paulo todas as conquistas dos desbravadores deste blog, o rpgpara. Confesso que sinto um orgulho vaidoso, perigoso quando tratamos de sucesso, quando vejo os rumos do Ragabash, do John Bogéa, do Gilson, do Mike, do Daniel Coimbra, do Lennon, do André Mousinho, da Cíntia e de todos que compõe essa távola honrada e autêntica, que me faz respirar um ar saudável de nostalgia da minha adolescência e da eternidade dos valores de amizade e construção coletiva de um projeto.


Enfim, fiquei pensando nessas coisas esses dias. E confesso que cada vez mais entendo a importância do Role Playing na minha vida. Graças à generosidade da minha mulher, e uma graça especial do Eterno Deus, hoje consigo jogar com minha família. Olho agora, enquanto digito esse texto, para minha filha, de apenas cinco meses, que dorme próximo do computador. Imagino se terei essa maravilhosa oportunidade de jogar com ela, e apresentá-la a um mundo que aos racionalistas ressentidos e medrosos pode parecer inútil.



De fato, a fantasia é perigosa, como bem sabiam os místicos, religiosos e poetas, porque as musas podem dizer a verdade ou a mentira, e as sereias podem aprisionar no tempo. Porém, como sempre foi desde que o homem começou a perceber sua finitude, sua condição mortal e contingente, sua mais absoluta fragilidade, a fantasia também revela uma autoconsciência, e nos permite investigar as realidades mais objetivas que nossos sentidos não podem revelar: esses significados universais e perenes, que todos sabemos que nos são imprescindíveis de viver, e poucos homens são aqueles que ousam pautar nesses significados a vida concreta e os relacionamentos que importam.
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10 de julho de 2011

RPGCON, memórias e maturidade

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RPGCON, memórias e maturidade


Nesse sábado dia 09 de julho, feriado aqui em Sampa, fui no rpgcon. Primeira vez que fui no rpgcon, apesar de morar em São Bernardo, área metropolitana de São Paulo. http://www.rpgcon.com.br/

Fui rápido, cheguei por volta de meio dia e saí às 15:30. Como não vou voltar no domingo, resolvi deixar algumas impressões aqui com vocês.

Tinha muita coisa acontecendo em termos de palestras, grupos de jogo e exposições. Um evento que misturava simpósio acadêmico, sarau literário e teatral e feira de jogos. Uma mistura que pode definir bem o rpg.

Entre salas com palestras desde: "como produzir seu próprio rpg e se dar bem";"ufologia e rpg"; "zumbis reais e fictícios", passei entre exposições de armas medievais, jogos de tabuleiros, roupas antigas, editoras consagradas e independentes e muitos, muitos grupos de jogos.

Neste relato de viagem, decidi alongar três situações que marcaram minhas impressões no rpgcon. Como disse, não pretendo fazer relatórios de participação de eventos. Já tenho problemas demais com a Capes. São apenas impressões pessoais.

A primeira foi meu feliz encontro com Jaime Cancela e Maria do Carmo. Amigos já alguns anos, sempre fico feliz em os encontrar num evento de rpg. Parece sempre que vim ao lugar certo. Diante de tantos personagens um tanto esdrúxulos no rpg, caras prepotentes e cheios de vaidade, e ao mesmo tempo malucos rasos o suficiente para me deixar entediado, a presença desse casal elegante e autêntico sempre me deixa a certeza de que as motivações que me levaram, e me mantêm, no rpg são válidas. Peguei algumas dicas de criação de filhos bebês com a Maria do Carmo.

Seu site atual http://www.metagamers.com.br/ , além de fazer uma discussão mais madura sobre vários aspectos do nosso tão afetuoso rpg, faz uma cobertura muito bacana, em tempo real, do evento do rpgcon. Vale a pena dar uma olhada.


Outro ponto foi a conversa que tive com o pessoal da Toca do Hobbit http://www.toca-sp.blogspot.com/ . Como fiz meu mestrado e faço meu doutorado sobre o pensamento de Tolkien, pensava nesse fã clube, um dos mais antigos e respeitados no Brasil, reconhecido pela Tokien Society, como um fórum de acadêmicos solitários, como eu.


Uma bobagem. Não que falte conteúdo, porque tive uma pequena aula de quenya e discutimos alguns filmes, além de poder comprar marcas páginas com meu nome, da minha mulher e da minha filha em quenya escritos na hora numa bela caligrafia, pude comprar deliciosos pães lembas, feitos em chocolate e canela.

A bobagem de minha parte foi esquecer porque sou apaixonado pela terra-média. O pessoal da toca se reunia para simplesmente celebrar a amizade, a confiança e a vida em família, se aventurando na difícil arte de ser gente grande com o coração ainda com disposição de viver a vida com alegria e companheirismo. Antes de uma bobajada acadêmica de minha parte, deixei me levar pela conversa leve e profunda de um oásis de boas vindas numa terra inóspita como São Paulo. Comprei até uma camisa com a estampa da porta de moria para minha mulher. Talvez eu vá na próxima festa hobbit que vai rolar esse ano, conforme anunciado no blog.

Por fim, tive a grata surpesa de conhecer, no estande do Tagmar, o Marcelo Rodrigues, um dos escritores do primeiro rpg brasileiro, publicado em 1991. Descobri que é um paraense, de Belém, embora tenha sido criado no Rio de Janeiro.

Confesso que fiquei emocionado de ter conhecido um dos autores do rpg de fantasia medieval que eu mais joguei na minha adolescência. Conversamos longamente e ele me explicou a história do jogo, sua confecção e composição, as influências, a história da GSR, a editora que publicou o Tagmar, como essa editora encerrou as atividades em 1997 e como o Tagmar ressuscitou desde 2004, com a internet realizando contatos, fãs e grupos de jogadores. Daí o lançamento do Tagmar II, http://www.tagmar2.com.br/ , de distribuição gratuita e ampliação de cenário, personagens e contos baseados no universo.

Nessa conversa, minha memória percorreu os anos 90 e meu contato com o rpg desde 1991. A experiência de jogos com Tagmar foram intensas, grupos de jogos que vivemos épicas aventuras. Foi nessa década que li Tolkien, e todo meu extravasamento criativo de inspiração da terra média foi realizada no mundo de Tagmar. Meu contato com o D&D foi bem mais tardio e bem mais rápido. Tagmar é de fato minha referência mais primordial de rpg de fantasia medieval.

Falei para o Marcelo, um cara de 46 anos hoje, que em 1991 era um moleque de 26 anos, de como o Tagmar foi importante na minha vida inclusive. Uma das motivações de querer ser professor de história e de mitologia foi o Tagmar. A resposta dele, de depois da decepção com a editora, querer voltar a vivenciar esse mundo de publicações de rpg, foi justamente no mesmo caminho. O rpg nos dá um sentido, um significado de grandeza, de contemplação, de virtude, que o opaco mundo contemporâneo, de tão devassado e estéril, não consegue nem simular.

Agradeci a ele no final, por seu trabalho ter me feito pensar tão seriamente, e comprei as impressões de Tagmar II que ele vendia, a preço de custo, apenas para divulgar seu trabalho. Comprei um exemplar de tudo que ele estava vendendo.

Ainda que tristemente sejam poucos os que conseguem viver de rpg no Brasil, os que insistem em continuar a trabalhar com ele, e com seus significados, são exemplares. Mesmo amadurecidos, com responsabilidades profissionais, familiares e públicas, aqueles que ousaram viver a fantasia são admiráveis. Não porque são peters pans infantilizados com complexos de negação de sua necessária maturidade. Mas porque atravessaram a ridícula idéia de que ser maduro é ser amargo, e se permitem viver não uma ilusão inútil, mas uma fecunda segurança dos significados que fazem a vida valer a pena.

Ir no rpgcon me fez bem. Uma experiência de encontro com minhas memórias, minhas motivações. Fiquei pouco tempo, talvez porque já soubesse que eu já carregava todos aqueles mundos fantásticos e sombrios, aqueles seres terríveis e esplêndidos, épicos e trágicos, em minhas mil vidas no rpg. Voltei da aventura, com os troféus para minha filha e minha mulher. Voltei para casa depois de ter atravessado além do tempo e mais longe que o espaço.

Agora, me resta meditar sobre tudo isso, e pensar em quanto tempo terei que esperar para levar minha filha para o próximo rpgcon, e apresentar a ela todas as portas para todos os mundos que a imaginação mais indomável pode levar.
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11 de junho de 2011

X-Men

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Fui assistir o X-Men. Gostei muito do filme. Finalmente Magneto se transformou no grande vilão. Um nazista totalitário e aristocrático completamente. Escrevi uma resenha no www.rederpg.com.br

No geral, o professor X é um mimado playbou que não sabe nada. Magneto herda a visão nazista, embora seja judeu, e coloca os mutantes no lugar dos arianos. Claramente, a discussão do sofrimento se transformando em justiça. Brilhante.
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8 de junho de 2011

Kung Fu Panda, crianças e taoísmo. – SPOILERS.

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Kung Fu Panda, crianças e taoísmo. – SPOILERS.

Esse fim de semana fui assistir a pré estréia de Kung Fu Panda 2. Fui sozinho, porque minha sogra estava na quermesse da Igreja e minha mulher não confia em mais ninguém para deixar nossa filha. Depois de uma longa conversa, decidimos que eu deveria ir. Então eu fui. Sozinho. Foi curioso, porque era uma sessão de domingo às 14h40. Eu e um monte de crianças com seus pais. Seria ridículo me ver assim, mas se eu entrasse nessa de que me achar ridículo, nem o filme eu iria ver. Um panda lutando Kung Fu já é infantil demais.



E aí que está a grande incógnita do filme. Quando assisti o primeiro Kung Fu Panda me impressionei. Confesso que achei esplêndida a mistura da jocosidade ocidental infantilizada com os desenhos de inspiração chinesa tradicional, lembrando o teatro das marionetes e fantoches, com os tons de vermelho e amarelo. O roteiro demonstrava uma poética boba, com um protagonista bobo que se via enfiado no meio da busca pelo predestinado herói que salvaria a cidade, mas que encantava com sua trama de superação de suas limitações e travas que o encolhiam mais do que era.



Essa é a grande conquista de Kung Fu Panda 2. Po agora é o grande dragão guerreiro, e vive liderando seus amigos contra os bandidos de sua região. Eis que então Lorde Shen, o pavão, consegue conquistar uma grande cidade da China, eliminando o maior mestre de Kung Fu mestre Rhino, com suas recém descobertas armas de fogo. Resta a Po a missão de enfrentar e derrotar através do kung fu aquela arma que foi feita para destruir o kung fu. Tarefa aparentemente impossível.



Paralelo a isso, o drama de quem é na verdade Po, de onde ele veio e de quem foram seus pais, se apresenta. Instigado pela dúvida e por sonhos cada vez mais freqüentes ele descobre que fora adotado, porque é o único sobrevivente de uma aldeia inteira de pandas. O executor foi o filho dos soberanos da cidade, o próprio Lorde Shen, que eliminou a aldeia de pandas da região porque uma adivinha previu que ele seria morto por um guerreiro preto e branco, logo um panda.



A matança de Lorde Shen, da qual somente Po escapara, fez com que seus pais o abandonassem, exilando-o da cidade. Eis o mote de vingança de Shen, tentando recuperar a cidade que estava governada pelo conselho de mestres de kung fu depois da morte dos antigos senhores pavões.


A essas duas tramas, do confronto entre kung fu e tecnologia, a busca da identidade e dos pais de Po, e da vingança contra os pais de Lorde Shen, a temática da paz interior, tão cara ao taoísmo (1) e ao espírito das artes marciais, se manifesta ao lado de virtudes como a amizade e a confiança. Assim os temas de confronto entre tecnologia e espiritualidade, o debate sobre honrar os pais e por fim a busca da virtude pessoal e social, se entrelaçam num roteiro leve, engraçado e emocionante.



Sim, é um filme para crianças. Mas que filme para crianças! Despretensioso e profundo, às vezes cruel, como aquelas perguntas que uma criança faz: “Pai, porque vale a pena ir pra escola se meu cachorro morreu? Porque vale a pena estudar se todo mundo vai morrer?”. Ou então “Pai, porque você diz que trabalha tanto pra gente ficar bem e quando você não está trabalhando não gosta de ficar com a gente?”. Enfim, qualquer pergunta ingênua que revela a inevitável contradição humana, que a gente esconde e torna simplória porque sua verdade é terrível demais.



Uma das grandes atrações das artes marciais é a essa temática da superação de seus limites. É essa força que atrai e fascina. Desde Karate Kid, o original e mesmo a nova versão com Jackie Chan(2) , dos filmes do Bruce Lee, da utilização das artes marciais no Matrix, dos velhos pastelões do Van Damme, como O Grande Dragão Branco, o filme O Último Samurai, com o Tom Cruise, e o Os Sete Samurais, do Kurosawa, o Clã das adagas Voadoras, os filmes de Jet Li, e recentemente a sequência O Grande Mestre e O Grande Mestre 2, que conta a história de Ip man, o mestre que ensinou Bruce Lee.



Todos esses filmes, e muitos outros contêm a temática da capacidade do treinamento da arte marcial não modelar somente o corpo, mas modelar o espírito. É a aprendizagem da disciplina, da ordem, do propósito, da honra, da libertação dos vícios no corpo refletirem a libertação dos vícios da mente. O condicionamento marcial em forma de arte é o condicionamento do espírito em forma de virtude. Essa sintonia, essa harmonia, esse fino enlace entre corpo e espírito é a arte marcial.



É exagero dizer que Kung Fu Panda 2 possui essa robustez em seu roteiro. É um filme para crianças. Mas é com absoluta certeza um filme de arte marcial. Ver o filme é uma montanha russa de cores, ação e emoções que vão da empolgação com as lutas, risos com as situações cômicas e comoção com as cenas dramáticas. É um filme para crianças, um dos melhores que eu já vi.



Nessa hora, sempre lembro do velho mestre Tolkien, em seu ensaio On Faury Stories de 1939, em que ele fala que as estórias de fadas são relegadas às crianças porque elas são as únicas que sabem aproveitá-las com o verdadeiro sabor. Assim como os mitos, as lendas e as narrativas sagradas e religiosas, as estórias de fadas só são aproveitadas se tivermos a crença secundária, uma suspensão da descrença, um voto de confiança para que o texto, ou no caso o filme, possa te levar a acreditar realmente naquela realidade. Somente assim o sobrenatural e o absurdo podem ser uma experiência estética, filosófica até, com grande carga de sentido e beleza.



Li em alguns periódicos de artistas chineses que reclamavam da vulgarização da cultura chinesa que o filme traz. È um filme de Hollywood, com o protagonista um gordo bobão que humilha as figuras mais tradicionais, como o mandarim, a estética do dragão, do vermelho e do trabalho duro do povo humilde chinês. Seria um desrespeito com a verdadeira arte da china, a arte que os artistas chineses, patrocinados e legitimados pelo Partido Comunista da China, fazem.


De fato consigo identificar alguns elementos Homer Simpson ou Fred Flinstone no panda Po. Não é a toa que a venda de bonecos e acessórios dos personagens podem ser encontrados no MacDonald´s. Todavia, o fundamental em Po é essa predestinação do improvável, da liberdade absoluta se convertendo em autodeterminação e destino. Se Po de fato macula a cultura chinesa com elementos ocidentais, também traz coisas boas.



Novamente, a aristocracia marcial sempre foi um problema para nossa sensibilidade democrática. Estamos presos entra a nostalgia e fascínio da virtude e excelência e a ojeriza e repulsa pelas castas e classes entre pessoas. Isso acontece com os heróis gregos, os soldados romanos, os cavaleiros medievais e também entre oes mestres chineses.



Acusar Po e seus companheiros de serem ocidentais demais é esquecer que sua simpatia é justamente por sua imperfeição, sua improbabilidade, seu ridículo. Uma aristocracia estatizante e repressiva como a chinesa contemporânea está bem longe da arte tradicional dos mandarins e do Templo Shao Lin, ao mesmo tempo em que nos lembra que toda aristocracia é excludente, por mais virtuosa e fascinante que seja. Eleger um gordo bobo ocidental como herói só poderia acontecer em nossa ridícula democracia ocidental.



Por fim, o filme não tem pruridos de mostrar como a tradição e a herança dos pais não são definidores de um destino. Po, órfão de uma aldeia destruída, criado por um cozinheiro simplório, pode se superar e se tornar o grande dragão guerreiro e encontrar a paz interior, ao mesmo tempo em que Lorde Shen, pavão de família aristocrata e virtuosa, trai sua linhagem por orgulho de se dedicar mais a tecnologia com fins de domínio do que prover alegria dos fogos de artifício como seus pais faziam.



Ao atrelar a virtude ao conhecimento e ao treinamento, o filme Kung Fu Panda 2 se insere nessa tradição de significado da arte marcial. O encantamento dessa harmonia, que é simbolizado pelo preto e branco do panda com o símbolo do Tao, do yng e yang, mostra uma busca do roteiro por uma fusão entre ocidente e oriente, entre o ridículo e o banal com os significados mais elevados da tradição. O filme pertence a uma história arquetípica do herói do cotidiano, num contexto global em que abundam tradições e rótulos que nos impõe, e a coragem de construir a nós mesmos amparados nas escolhas que fazemos.



Ao retornar pra casa, fiquei pensando no velho drama de pais e filhos, das tradições e das escolhas que devemos manter ou romper. Queria muito ter ido com minha filha, como vi tantas famílias ao meu lado no cinema. Não mais me sentia ridículo, apenas ansioso, porque queria minha filha comigo assistindo o filme. Será um desses que vou querer assistir de novo, dessa vez com ela, quando ela começar a fazer perguntas inconvenientes e ridículas, que expressam as mais sinceras e constitutivas buscas de cada ser humano, seja oriental ou ocidental, panda ou pavão.

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(1) O livro A História das Religiões, do filólogo do MIT Houston Smith, pesquisador das religiões chinesas pode ser uma boa introdução ao taoísmo. Também O livro das Religiões, do Josten Gaardner serve como introdução.

(2) Muita gente criticou a idéia do novo Karate Kid, principalmente por se tratar de kung fu e ser na china. Disseram que era um enlatado que o Will Smith pagou para o filho pdoer brincar de artes marciais. Tudo bem, até concordo. Apenas uma cena se salva do filme. Quando o velho mestre, bêbado, realiza seu ritual de culpa por ter provocado o acidente que matou seu filho e sua esposa é convocado pelo aprendiz, órfão e estrangeiro na china, a reconstruir o kung fu, e ambos recomeçam o treino. Dois párias, excluídos, que reconstroem o espírito e a virtude pela arte marcial.

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23 de maio de 2011

Filme Padre, vampiros e a morte do Osama.

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Filme Padre, vampiros e a morte do Osama.



Esse fim de semana fui assitir ao filme Padre, com Paul Bettany no papel do sacerdote católico num mundo devastado por vampiros que mais parecem aliens ou zergs. Nada mundo interessante. Escrevi uma resenha mais completa sobre o filme no www.rederpg.com.br

Lendo as resenhas e críticas do filme, vi que uma das atrações foi por causa do filme falar mal da Igreja católica. Enfim, o protagonista, um padre guerreiro, se revolta contra a letargia e o orgulho do clero para defender sua família.

O interessante é que só através da discussão mantida pela Igreja, o velho bem e mal, que a ação do personagem se justifica. Somente porque existe a justiça que o padre pode denunciar a Igreja por ser corrupta. Então a crítica não é contra o que a Igreja prega, mas como ela se comporta diante disso. O problema é a hipocrisia, e não a divisão entre bem e mal.

Logo, como definir a justiça? Um indivíduo sozinho pode impor essa vontade e sua própra versão da justiça, como acontece no filme, mas na vida real isso pode ser bem complicado. A inquisção tentou limpar os padres hipócritas, pedófilos entre eles, e hoje todo mundo fala mal dela. Osama bin laden pode ser considerado um homem santo que se revoltou contra a hipocrisia dos islâmicos sauditas, e é um assassino terrorista.

A conversa de religião e guerra é velha, perigosa e poderosa. Talvez esse filme trate com certa irresponsabilidade do tema.
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7 de maio de 2011

Duas notícias.

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Duas Notícias.

Ontem fui assistir o Thor, de Kenneth Branagh. Gostei bastante, escrevi uma crítica do filme no novo site que participo: www.rederpg.com.br . Oficialmente sou redator de cinema por lá, e a crítica de Thor foi minha primeira crítica. Se quiserem deixar comentários, podem acessar.

Fui convidado para escrever por lá justamente devido aos meus textos por aqui. Agradeço os comentários e as oportunidades. Como lá se trata especificamente de cinema, outros temas escreverei por aqui. Quando for cinema, aviso e passo o link.

Abs!
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20 de abril de 2011

Amizade, Role Playing, Bem

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Uma das coisas que gosto de perder tempo é com amizades. Uma tradição de família, porque sempre vi meu pai, mãe e meus tios valorizando suas amizades de forma sincera e profunda. Dessa forma até hoje tento preservar até amigos de infância e cultivar novas amizades no ambiente profissional. No mundo atual, a famosa network, a rede de contatos, pode ser fortalecida através da amizade, que se torna um meio de sobrevivência.


Recentemente tive uma discussão com vários desdobramentos em uma lista de e-mail que participo. Seus componentes são amigos próximos e conhecidos distantes, mas todos com o objetivo comum de comentar sobre jogos, de computador e de Role Playing, além de livros sobre os temas, HQ´s e seriados. Alguns desses integrantes foram meus amigos há muito tempo, e alguns se tornaram muito importantes na época em que começava no Role Playing, há vinte anos.



Pois bem. Após algumas trocas de e-mails sobre temas polêmicos, como ciência, política e religião, percebi que algumas coisas mudam, e amizades que outrora eu julgava sólidas, são facilmente descartadas depois de algumas divergências de visões de mundo e posições de valores e filosóficas. Isso me entristeceu, e me intrigou.



É ponto comum dizer que o Role Playing gera amizade daquela de mesa, de tardes e noites de estupefatas situações inusitadas e inglórias com um grupo de pessoas heterogêneas com suas determinadas crises e traumas narrando situações cômicas e espalhafatosas, que se transformam em lendas lendárias a serem contadas em grandes encontros ou em mesas de bares, para serem rememoradas entre gargalhadas e orgulhosas descrições das situações heroicas ou trágicas que se viveu em conjunto.



Até aí é excelente. É como jogar bola, sinuca, videogame, aeromodelismo ou qualquer hobby ou esporte comum. Ou mesmo, em alguns níveis mais sofisticados, podemos comparar com um grupo de escritores ou de atores que praticam sua arte e mantém laços de amizade para troca de ideias e estudos de caso para elaborarem melhor sua atividade comum.



Porém, diante dessa situação de instabilidade na amizade, a ponto de chegar a ofensas sérias e talvez rompimentos definitivos por ofensas contra a honra, me perguntava qual seria a validade dessa amizade gerada pelo Role Playing.



Na filosofia, Aristóteles dizia que existem três tipos de amizade, que são classificadas segundo o objetivo da amizade. O interesse das pessoas de terem amigos, que para Aristóteles significava o interesse pela alma de outra pessoa, sua personalidade e seu espírito, o que diferenciava a amizade do eros, o amor que tinha interesse também pelo corpo, tinha três razões. O primeiro, o mais frágil e simples, é o da diversão. As pessoas se tornam amigas daquelas que dividem seus prazeres, como comer bem, beber, aproveitar arte ou praticar esporte. A amizade do passatempo, a qual o Role Playing é mais comumente associado.



A segunda forma de amizade era da utilidade. As pessoas são amigas das outras porque tem interesses de usar aquela pessoa, e por isso ficam puxando o saco, querendo proteção, mostrando serviço, porque sabem que aquelas pessoas podem ajuda-las quando for necessário. A famosa política da boa vizinhança, fazer o social, a negociação da diplomacia e do jogo da corte. Essa forma é mais estável, porque joga com significados mais profundos como riqueza, segurança e política.



A terceira forma, que Aristóteles considerava a mais elevada, era a amizade fundada no bem recíproco. Ser amigo é simplesmente querer a felicidade do outro, e não apenas me interessar que ele venha para o jogo ou o que ele pode ser útil para meus planos. É querer que o amigo chegasse na eudmonia, a felicidade, ou seja, uma vida plena. E da mesma forma essa busca do bem tem que ser recíproca. Essa amizade era a base do Estado, da sociedade, na qual uma nação, uma cidade, poderia se sustentar e equilibrar sua justiça.



As fraternidades, os clubes, as religiões, os partidos políticos, as Organizações não Governamentais são exemplos desse tipo de amizade. Amizade que se interessa pelo bem. É a amizade do adulto sábio, que busca não apenas a diversão conjunta ou a utilidade instrumental, mas busca o significado do Bem. E esse é o problema. Definir o que é o bem é um esforço milenar, que consolidou nosso estado, nossa civilização, nossas religiões e nossa justiça. Um tema difícil, complexo, cheio de paixões e furores, que muitos consideram perda de tempo e uma tarefa inútil, considerando o bem algo de foro privado e inquestionável, esquecendo que estupradores também mantem seu código de ética, e que viver em comunidade humana é pensar em crimes e limites, e enfim, pensar no que é o Bem.



O grupo da década de 30 e 40 do século XX na Inglaterra, os Inklings, formado por Tolkien, Lewis, Williams outros escritores, se reuniam para ler sagas épicas, medievais e antigas, e escrever suas próprias estórias. Se divertiam bastante com certeza, mas também organizavam mudanças curriculares e políticas nas universidades onde trabalhavam, e não era raro religiosos, padres, teólogos e pastores, participarem com assiduidade de suas reuniões. E muitas amizades foram forjadas durante décadas, que ecoam em influências nos trabalhos particulares dos integrantes do grupo.



E o nosso Role Playing? Vejo algumas ong´s que se formaram em torno dele, e também sociedades empresariais, lojas e editoras, que buscaram se consolidar num esforço comum para viver de Role Playing. Poucas conseguiram até hoje. Ainda se mantém essas sociedades como hobby, como clubes que participamos apenas para nos divertirmos e relaxar e rir com os amigos. O Role Playing é um jogo no fim das contas.



Algumas investigações acadêmicas, especialmente na área de educação e linguística, tem pensando no Role Playing como formador de valores e de método de aprendizagem de conteúdos diversos. É possível pensar nessa atividade como um meio para cultivar a amizade para além da diversão, abrangendo política, trabalho, filosofia e religião? O senso comum afirma, com muitos argumentos, que não.



A fragilidade da amizade é grande. Aristóteles dizia que era necessário hábito e tempo para formar uma amizade, e fazê-la evoluir da diversão para a investigação sobre o Bem. Talvez o mundo hoje não tenha nem hábito e nem tempo para outra coisa a não ser o individualismo e o egoísmo consumista. E são poucos os espaços onde é possível encontrar tempo e disposição de hábito para a convivência formadora de amizade para além do entretenimento.



É uma pena ver onde a amizade fracassa. Natural, sendo parte do amadurecimento. Nada pode ficar estagnado. Talvez o objetivo do Role Playing continue sendo interpretar um grupo de personagens em diversas histórias significativas, épicas, de horror ou trágicas, mas que no fim a amizade se mantenha apenas entre os personagens, que tem que tomar decisões morais que muitas vezes salvam o mundo. Quanto aos jogadores, nós sabemos que faz parte do amadurecimento entender que o mundo não pode ser salvo, e que na verdade é cada um por si e todos contra todos. Deixemos essas ilusões vãs para nosso imaginário, que nos permite um escape melhor que os outros passatempos simplesmente por uma questão pessoal.




Ainda bem que existe ainda a amizade por diversão. Talvez a única que reste de forma sincera no mundo. Para preservá-la, basta não discutirmos muito as questões mais significativas como o Bem, a verdade, a honra, a justiça, o sacrifício, o Mal e a morte. Deixemos que nossos personagens façam isso por nós.
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22 de março de 2011

Eliade, mitopoética, nostalgia

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Eliade, mitopoética, nostalgia.


Mais citações sobre mitopoética, aventuras e narrar lendas. Continuando na linha filosófica, trago mais duas citações de Mircea Eliade. Uma sobre as relações entre contos e sagas (literatura) e os mitos (religião, sagrado).

“Para começar, ao nível das culturas ‘primitivas’, a distância que separa os mitos dos contos é menos nítida do que nas culturas em que existe um profundo abismo entre a classe dos ‘letrados’ e o ‘povo’ ( como foi o caso no antigo Oriente próximo, na Grécia, na Idade Média europeia). Os mitos são frequentemente misturados aos contos (e é quase sempre nesse estado que os etnólogos os apresentam) ou, então, aquilo que se reveste do prestígio de mito em uma tribo será apenas um simples conto na tribo vizinha. Mas, o que interessa ao etnólogo e ao historiador das religiões é o comportamento do homem em face do sagrado, o comportamento que se evidencia através de toda essa massa de textos orais. Ora, nem sempre é verdade que o conto indica uma dessacralização do mundo mítico; e em lugar de dessacralização, seria preferível dizer ‘degradação do sagrado’. Como Jan de Vries demonstrou muito bem, não há solução de continuidade entre os enredos dos mitos, das sagas e dos contos maravilhosos. Outrossim, se os Deuses não mais intervém sob seus próprios nomes nos mitos, seus perfis ainda podem ser discernidos nas figuras dos protetores, dos adversários e companheiros do herói. Eles estão camuflados – ou, se se prefere, ‘decaídos’ – mas continuam a cumprir sua função. (ELIADE, 2007, p 172-173).





O outro fala do tesouro mítico presente no cotidiano do homem moderno, como a literatura e os passatempos (Role Playing).



É esquecer que a vida do homem moderno está cheia de mitos semi-esquecidos, de hierofanias decadentes, de símbolos abandonados. A dessacralização incessante do homem moderno alterou o conteúdo da sua vida espiritual; ela não rompeu com as matrizes da sua imaginação: todo um refugo mitológico sobrevive nas zonas mal controladas.
Aliás, a parte mais ‘nobre’ da consciência do homem moderno é menos ‘espiritual’ do que geralmente somos tentados a crer. Uma rápida análise revelaria nessa ‘nobre’ e ‘alta’ esfera da consciência algumas reminiscências livrescas, muitos preconceitos de diversas ordens (religiosos, morais, sociais, estéticos etc.), algumas idéias prontas sobre o sentido da vida, a realidade última etc. Não tentaremos descobrir o que aconteceu, por exemplo, ao mito do Paraíso Perdido, à imagem do Homem perfeito, ao mistério da Mulher e do Amor etc. Tudo isso, entre muitas outras coisas, se encontra – quão secularizados, degradado, maquiado”... – no fluxo semiconsciente da mais material das existências: nos devaneios, nas melancolias, no jogo livre das imagens durante as ‘horas vazias’ da consciência (na rua, no metrô etc.), nas distrações e nos passatempos de todos os tipos. Entretanto, repetindo, esse tesouro mítico aí repousa ‘laicizado’ e ‘modernizado’. (ELIADE, 2002, p. 14).



Interessante não? O que acham do mito em nossas aventuras de Role Playing? Pertinência ou forçada?
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16 de março de 2011

Aventuras, história, role playing

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Aventuras, história, role playing



Diretamente do front acadêmico, novas citações de historiadores badalados. Dessa vez sobre literatura arturiana, a matéria da Bretanha. Fonte inesgotável de enredos de aventuras rpgísticas, material de estudo literário, filosófico e histórico.

A fatídica data da qualificação da tese se aproxima. Para aliviar a tensão, divido com vocês citações despretensiosas e desconexas. Talvez sugestões teóricas para refletirmos sobre o significado da aventura em nossos jogos.



“Como em todas as civilizações, a literatura narrativa da Idade Média está, em suas formas mais antigas, inteiramente projetada no passado: passado carolíngio das canções de gesta e passado mais distante ainda das lendas heróicas germânicas, passado antigo ou arturiano dos romances, passado da colonização da Islândia ou passado lendário das sagas, passado da história. Em todos os casos, é a genealogia do presente que está em questão. É também a relação com a verdade. Os primeiros romances franceses são adaptações de obras da Antiguidade latina – a Tebaída, de Estácio, a Eneida. Por um esforço ao mesmo tempo histórico e filológico, eles têm a ambição de conservar a memória verdadeira do passado. Tomados em conjunto, eles pintam um afresco dinástico que vai dos Argonautas e da guerra de Tróia a Henrique II, o Plantageneta. Porém, em seu caminho eles encontram as maravilhas do mundo arturiano, tema de história mas também tema para histórias que todos escutam e nas quais ninguém acredita. Fascinado pelas maravilhas da Bretanha, o romance não se cansa de contá-las. Mas ele não pode mais reivindicar a verdade dos fatos. Procura, então, a do sentido. É a grande mudança realizada por Chrétien de Troyes.”(ZINK, 2002, p. 85)





“O termo ‘herói’, que na antiguidade designava uma personagem fora do comum em função da sua coragem e vitórias sem que por isso ela pertencesse às categorias superiores dos deuses e semideuses, desapareceu da cultura e da linguagem com a Idade Média e o cristianismo no Ocidente. Os homens que a partir de então eram considerados como heróis – sem que este termo fosse empregado – eram um novo tipo de homem, o santo e um tipo de governante promovido ao primeiro plano, o rei... Os heróis de que se trata aqui são personagens de alto posto ou de nível elevado que se definem não como santos e reis, mas de outra forma. O termo da linguagem medieval que mais se aproxima em francês antigo do que pretendo designar aqui é o adjetivo preux (corajoso, valente), que, no final do século XII, passa a ser substantivo. No século XII, o termo de onde vem a palavra prouesse (proeza) era associado ao valor guerreiro e à coragem, e na maior parte das vezes designava um homem destemido, um bom cavaleiro. No século XIII, ele modificou-se adotando principalmente o sentido de cortês, gentil, belo, franco.” (LE GOFF, 2009, p. 15-16).






“Os romances de aventuras traduzem essa tendência. Tomam, inicialmente, a forma dos romances antigos, de que Enéias, Heitor ou Alexandre representam os heróis. Repõem a Antiguidade em moda e introduzem nas mentalidades elementos da moral laica, sobretudo um ideal novo, que também se encontra nos trovadores provençais: a cortesia, que exalta as boas maneiras, o serviço à senhora, o amor dito ‘cortesão’, naturalmente adúltero, desprezando o casamento e desdenhando o ciúme. Pelo que já se disse, deve-se ver aí uma elaboração ideológica da pequena nobreza? É possível. Mas pode-se também sustentar que os príncipes e senhores usaram os modelos cortesãos em proveito próprio, para atrair os cavaleiros. Em troca, está claro que o ideal cortesão se opõe radicalmente à moral tradicional da Igreja: ele canta o amor sensual, o apelo aos favores da dama casada, a procura do luxo e da moda, o brilho dos tecidos, das riquezas e das cores, a bravura guerreira desinteressada, o porte imponente, a altivez, mesmo a arrogância aristocráticas.” (FLORI, 2002, p. 196-197)





Mas o cavaleirismo não teria sido o ideal de vida durante séculos se nele não estivessem presentes valores elevados para o desenvolvimento da vida em sociedade, se não tivesse sido social, ética e esteticamente necessário. A força desse ideal repousava justamente nesse seu exagero do belo. É como se o espírito medieval, com sua paixão sangrenta, só pudesse ser conduzido se o ideal fosse posto num plano elevado demais, assim como fazia a Igreja, e como fazia o pensamento cavaleiresco... Porém quanto mais um ideal de cultura exige virtudes das mais elevadas, maior é a desarmonia entre a forma de vida e a realidade. O ideal cavaleiresco, com seu conteúdo ainda semirreligioso, só podia ser reconhecido por uma época suscetível à completa ilusão, que fechasse os olhos frente a realidades muito duras. A civilização que estava despontando exigia que as aspirações elevadas demais da velha forma de vida fossem abandonadas. O cavaleiro torna-se o gentilhomme francês do século XVIII, que ainda mantém uma série de conceitos das questões da fé ou o protetor dos fracos e oprimidos. No lugar da figura do nobre francês, surge o gentleman, em linha direta com o antigo cavaleiro, agora modificado e refinado. Desse modo, nas transformações sucessivas do ideal cavaleiresco, a camada mais epidérmica, tornada mentira, se solta mais uma vez (HUIZINGA, 2010, p. 173).






Espelho da sociedade feudal, exaltando a função guerreira e seus atributos acima de tudo, as empreitadas aventureiras são projeções parciais das efetivas ocupações dessa sociedade, nas quais se ensejava ao indivíduo oportunidade para provar a bravura, a ousadia e a habilidade no manejo das armas (melhor dizendo, sua resistência física, dada a natureza dos combates). Como em muitos romances arturianos, e sobremaneira, no ciclo do Graal-Vulgata, há uma nítida influência clerical, os feitos cavaleirescos incidiam em pontos vitais do código cristão da cavalaria: a defesa dos fracos, das donzelas, das viúvas, do senhor (naturalmente) e a reparação das injustiças. A defesa da Igreja e da religião, ponto alto das canções de gesta, só é mencionada, mas na prática não aparece. Isto se explica porquanto essa literatura está presa ao seu atavismo céltico, erguendo-se gloriosamente ao lado de um pálido cristianismo, reduzido a umas práticas que mal recobrem as latentes tradições pagãs. Assim, muitas das aventuras contêm, velada ou abertamente, componentes mágicos e sobrenaturais, por vezes inexplicáveis nos limites da narração. (MELLO, 1992, p. 71).




Existindo no passado, no presente e no futuro, a aventura deixava de ser um mero fato, um acontecimento a realizar-se (como a imaginamos hoje e como o revela o próprio sentido etimológico do termo latino adventura, o que está por vir), para tornar-se uma instituição tão real quanto a corte de Artur e a Távola Redonda. Só deixava de existir quando fosse encontrada e resolvida pelo cavaleiro certo, a quem estava destinada. (MELLO, 1992, p. 70).




“A aventura propriamente dita acontece fora do mundo civilizado. Ela participa do meio florestal, do ambiente selvagem, desordenado e sobrenatural. Contudo, na foge aos padrões morais impostos à cavalaria cristã. O socorro às vítimas de injustiças e o resgate dos seqüestrados formam a trama básica de muitas delas. Ele podia ser solicitado na corte, ou nos caminhos percorridos pelos nossos personagens. O universo exterior estava repleto de raparigas maltratadas ou ameaçadas por indivíduos perversos, bem como de bons cavaleiros, feridos ou injustamente assassinados. Cabia então ao herói salvar a donzela em apuros ou vingar (vingança e justiça são sinônimos na Idade Média) a vítima.” (MELLO, 1992, p. 74).





“Fica por estabelecer a que é que se contrapõe, no sistema de valores dos homens do Ocidente medieval, esta floresta-deserto. Ao mundo, isto é, à sociedade organizada; por exemplo, no romance cortês, à corte, à corte do rei Artur. Contraposição mais complexa do que o que poderia parecer à primeira vista, porque o rei, como se disse, é também ele um homem da floresta que, de tempos em tempos, por causa da caça ou das suas relações com os eremitas, vai lá confirmar a sua sacralidade e legitimidade. Na literatura, expressão privilegiada, juntamente com as artes figurativas, do simbolismo de uma sociedade, capta-se sobretudo a contraposição floresta-castelo. Mas o castelo, nessas obras, é também a cidade... No Ocidente medieval, a contraposição não é, na realidade, entre cidade e campo, como na antiguidade (urbs-rus, para os romanos, com os desenvolvimentos semânticos urbanidade – rusticidade), mas o dualismo fundamental cultura – natureza exprimi-se de preferência mediante a contraposição entre o que é construído, cultivado e habitado (cidade, castelo, aldeia, indiferenciadamente) e o que é propriamente selvagem (mar, floresta, equivalentes ocidentais do deserto oriental), entre o universo dos homens que vivem em comunidade e o universo da solidão.” (LE GOFF, 1990, p, 51-52)

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17 de fevereiro de 2011

Mircea Eliade, conto maravilhoso, iniciação imaginária.

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Mircea Eliade, conto maravilhoso, iniciação imaginária.



Entre citações e teorias, descobri esse texto de Mircea Eliade, um historiador romeno, filósofo e teólogo. Cara importante para estudiosos da religião, principalmente de uma vertente chamada fenomenologia.

O livro chama Mito e Realidade, de 1963, onde ele recupera o sentido da palavra mito como narrativa sagrada de cosmogonia ou de origem de uma realidade. 1963 foi o ano da morte de Lewis e quando Tolkien já se consagrava como autor do famoso O Senhor dos Anéis. Escrevi o artigo sobre Beowulf entre Tolkien e Borges na revista eletrônica www.ciberteologia.com.br


Fiquei pensando no que o que ele chama de iniciação imaginária, de desenvolvimento espiritual, tem no Role Playing. O que acham?




Embora, no ocidente, o conto maravilhoso se tenha convertido há muito tempo em literatura de diversão (para as crianças e os camponeses) ou de evasão (para os habitantes das cidades), ele ainda apresenta a estrutura de uma aventura infinitamente séria e responsável, pois se reduz, em suma, a um enredo iniciatório: nele reencontramos sempre as provas iniciatórias (lutas contra o monstro, obstáculos aparentemente insuperáveis, enigmas a serem solucionados, tarefas impossíveis, etc.), a descida ao inferno ou a ascensão ao Céu (ou – o que vem a dar no mesmo – a morte e a ressurreição) e o casamento com a Princesa. É verdade que o conto sempre se conclui com um happy end. Mas seu conteúdo propriamente dito refere-se a uma realidade terrivelmente séria: a iniciação, ou seja, a passagem, através de uma morte e ressurreição simbólicas, da ignorância e da imaturidade para a idade espiritual do adulto. A dificuldade está em determinar quando foi que o conto iniciou sua carreira de simples história maravilhosa, decantado de toda responsabilidade iniciatória. Não se exclui, ao menos para certas culturas, que isso se tenha produzido no momento em que a ideologia e os ritos tradicionais de iniciação estavam em vias de cair em desuso e em que se podia contar impunemente aquilo que outrora exigia o maior segredo. Não é de todo certo, entretanto, que esse processo tenha sido geral. Em grande número de culturas primitivas, nas quais os ritos de iniciação permanecem vivos, as histórias de estrutura iniciatória são igualmente contadas, e o vem sendo há longo tempo.

Poder-se-ia quase dizer que o conto repete, em outro plano e através de outros meios, o enredo iniciatório exemplar. O conto reata e prolonga a iniciação ao nível do imaginário. Se ele representa um divertimento ou uma evasão, é apenas para a consciência banalizada e, particularmente, para a consciência do homem moderno; na psique profunda, os enredos iniciatórios conservam sua seriedade e continuam a transmitir sua mensagem, a produzir mutações. Sem se dar conta e acreditando estar se divertindo ou se evadindo, o homem das sociedades modernas ainda se beneficia dessa iniciação imaginária proporcionada pelos contos. Caberia então indagar se o conto maravilhoso não se converteu muito cedo em um duplo fácil do mito e do rito iniciatório, se ele não teve o papel de re-atualizar as provas iniciatórias ao nível do imaginário e do onírico. Esse ponto de vista surpreenderá somente àqueles que consideram a iniciação um comportamento exclusivo do homem das sociedades tradicionais. Começamos hoje a compreender que o que se denomina iniciação coexiste com a condição humana, que toda a existência é composta de uma série ininterrupta de provas, mortes e ressurreições, sejam quais forem os termos de que se serve a linguagem moderna para traduzir essas experiências (originalmente religiosas).



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19 de dezembro de 2010

Escolas, magia, virtudes.

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Escolas, magia, virtudes.



Estou de férias. Já entreguei as provas, reprovei quem tinha de reprovar, assinei os livros finais. Quanto ao doutorado, entreguei os relatórios finais, com minha produção bibliográfica do ano, com até bons resultados. Infelizmente, enfrentar uma tese de doutorado é postergar definitivamente férias daquelas que a gente esquece da vida. Vou sair durante duas semanas da minha casa, passar Natal e ano novo, e volto na segunda semana de janeiro para continuar o tormento acadêmico de produzir tese.


Nesse mês de finalização, assisti com minha mulher seis filmes da série do Harry Potter. Ela gosta bastante, assim como uma das minhas irmãs. Assistimos porque ela quer ver o sétimo filme, que já esta nos cinemas, e me convencia ver os seis, que não tinha visto, para poder entender o fechamento da série.



Confesso que sempre tive preconceito com o Harry Potter. Embora seja um leitor de literatura inglesa, seja traduzido por português e mesmo me aventurando no original em inglês, não gostava do jovem mago de Hogwarts. Pensava que era bobo e mesmo redutivo no potencial da fantasia inglesa, que já produziu Shakespeare, Blake, Stoker, Shelley, Tolkien, Lewis e Gaiman. O enredo de Harry Potter não me agradava por três razões.



Primeiro, minha base é o Tolkien. O Senhor dos Anéis é apenas a ponta do iceberg de uma vasta mitologia com milênios de histórias. Uma profundidade geográfica, cultural, religiosa, filosófica fundamenta a obra tolkieniana. E mesmo em O Senhor dos Anéis, o mote principal é salvar o mundo. Os hobbits que carregaram o Um Anel, Bilbo, Frodo e Sam, são destinados a fazer seus sacrifícios para salvar o mundo, tudo aquilo que eles amam. O inimigo é um anjo caído, um maiar, que varre com corrupção e destruição pelo simples desejo e ardência pelo controle sobre vontades e terras. Um mal ancestral, que repercute na origem da criação do mundo, é expresso em Sauron. Uma discussão sobre a liberdade, a capacidade de escolha do Bem, e da ação criminosa do Mal.



Em contraponto, Harry Potter é a história de um menino que quer ser o cara da escola. O mal é justamente um cara que quis ser o cara da escola, e assim ser imortal. Voldemort é a mesma moeda do Harry Potter, ambos querem ser o cara, o mais competente, o mais forte. Nada além de uma autoafirmação adolescente diante das dificuldades de se tornar gente. Tudo no Harry Potter é mais infantil, mais reduzido, de âmbito menor. Existe uma diferença objetiva entre se sacrificar por aquele que quer salvar o mundo e pelo cara que quer ser o cara da escola. Existe uma diferença entre entender que o Bem é algo maior do que eu, que abrange a vida inteira, e perceber que eu sou o centro do Bem, e não interessa o motivo: acaso, predestinação ou eleição. Ver que o Bem é algo que eu devo buscar e reverenciar é diferente de perceber que eu sou o Bem.



Os seis filmes do Harry Potter me instigaram a ver o final. Finalmente o adolescente cresce num mundo duro, e com mortes e decisões difíceis, consegue virar adulto. Parabéns. Me lembra muito o C.S. Lewis, que fez o mundo de Nárnia com adolescentes crescendo, bem na linha de Peter Pan, de Barrie. Harry Potter é da linha infantil que ajuda o menino e a menina a se tornarem gente grande. A mesma que o Lewis. Porém, o Lewis ainda abrange muito mais a discussão quando coloca o poder, a traição, as virtudes como centro de um mundo inteiro, muito maior que os adolescentes que passeiam por esse mundo. O centro da narrativa de Lewis é Nárnia. Basta assistir esse último filme, Peregrino da Alvorada, para ver que os heróis adolescentes mudam. Em Harry Potter, tudo começa e termina com um órfão adolescente mostrando que é o melhor cara da escola.



O segundo motivo de eu não gostar do Harry Potter é a divisão drástica entre os trouxas e os magos. Esse negócio de raça pura e predestinação é um enrosco. Mesmo a autora refazendo o argumento em vários momentos, para dar uma aliviada no racismo e na divisão aristocrática, a tensa é permanente. Existem pessoas que nasceram e são destinadas a comandar, e existem pessoas que nasceram e são destinadas a obedecer. Durante milênios a humanidade pensou assim, mesmo no Brasil com a escravidão foi assim durante muito tempo. Mas associar aristocracia com magia e estabelecer essa magia como uma disputa de egos, quem é o mais forte, simplesmente é nazismo. Foi justamente por isso que a estrutra aristocrática feudal acabou. Por decadência dos nobres. Ao menos na antiguidade e na idade média, a formação da aristocracia era para o serviço. Os heróis mitológicos gregos deviam proteger o povo, mesmo enfrentando os deuses, assim como os cavaleiros cristãos deveriam proteger peregrinos e camponeses. Qual o serviço dos magos de Hogwarts? Ser melhores que eles mesmos e se enfrentarem a eles mesmos numa ridícula briga de grupos escolares.


A terceira razão de eu não gostar de Harry Potter é a ausência da religião. Que é a mesma coisa de ausência de uma causa justa e virtuosa (minha primeira razão), e a ausência de uma valorização da vida humana, por mais banal que seja (minha segunda razão), porém quando falo religião falo de uma busca mitológica que procure vislumbrar realidade objetivas que dão sentido na vida e que fazem a razão humana partir em busca do infinito e da eternidade. A grande vantagem da fantasia, a produção imaginativa capaz de criar imagens que não existem na realidade material, é poder se aventurar nos mistérios do mundo, do homem e do transcendente que sustenta todas as religiões. Toda boa fantasia deve ter um traço profético, visionário, extático, sapiencial.


Em Harry Potter, a fantasia é simplesmente uma maneira do adolescente se sentir mais poderoso que seu primo trouxa, mas com família que o ama, mesmo sendo uma família ridícula. Uma maneira do adolescente tímido poder controlar a natureza, justamente porque não consegue controlar seu meio social. Escapismo e delírios. Nada mais distante do que Shakespeare, Tolkien e Gaiman produziram.

Vou assistir com minha mulher o sétimo filme do Harry Potter. Afinal de contas, posso voltar a ser professor de adolescentes tímidos, cheios de inseguranças e dramas familiares. Ainda bem que existem outras literaturas fantásticas que alagam a visão, e não chovem no molhado.
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25 de novembro de 2010

Porque o Tropa de Elite 1 é melhor que o Tropa de Elite 2.

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Porque o Tropa de Elite 1 é melhor que o Tropa de Elite 2.

Há tempos que não escrevo neste blog, devido a exigências de provas, condução de tese de doutorado e artigos científicos a publicar e apresentar em congressos e seminários. Confesso que nem todos os artigos são prazerosos de escrever, que muitas vezes me canso da convivência de colegas de trabalho e alunos. Isso tudo para ter que responder inúmeras vezes: Você trabalha ou só dá aula?


Enfim, retomando minha discussões sobre a vida do Role-Playing, filosofia e arte, venho novamente colocar minha humilde opinião sobre um dos maiores sucessos de bilheteria do cinema nacional: Tropa de Elite 2.


Eu gostei do filme. É uma porrada bem dada na idéia de que a democracia é boazinha, um sonho lindo de morrer, e vale a pena morrer pela democracia, e que todos nós temos que nos curvar diante da terrível ameaça da negação democrática. Mostra que tudo não passa de jogo de interesse, e justamente por isso que tanto Platão quanto Aristóteles consideravam a democracia, mesmo aquela sustentada por escravos, a pior forma de governo. Para a democracia, o justo e o certo dependem do número de comparsas e de interesses mesquinhos que um grupo consegue arregimentar.


Claro que estou com Churchill: A democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as outras que a história já experimentou. Um mal necessário. Mas nem por isso me venham com a conversa ingênua de felicidade democrática como o Sumo Bem e a justiça plena.


É isso que Tropa 2 mostra. Um sistema tão corrupto que nem o próprio Rambo brasileiro, o Dirty Harry tupiniquim, o Charles Bronson canarinho, o nosso Capitão Nascimento conseguiu arrumar. É, o capitão Nascimento viu que o sistema era brabo mesmo, e os inimigos mais terríveis não eram os traficantes, mas sim a própria democracia, que não está nem aí com a justiça e o bem, mas somente com a mídia, as eleições, e um bom cargo público em assembléias legislativas e no congresso.


Outro dia, em uma aula de moral na faculdade de engenharia, trabalhei com uma análise dos filmes. Peguei o livro “Cristianismo Puro e Simple” do C.S. Lewis, amigo do Tolkien e escritor de Crônicas de Nárnia. Nesse livro, Lewis faz uma pequena apresentação do cristianismo em termos filosóficos e um início de teologia. O fato é que num capítulo: As três partes da moral, Lewis mostra que uma verdadeira investigação moral deve seguir três passos: o social, o individual e o destino humano.


A análise que fiz mostrava como o Tropa 1, apesar de ser violento, fascista e autoritário como um bom filme de guerra e de policial deve ser, também carregava uma virtude que garantiu seu sucesso: a coerência entre os três pontos da moral. O capitão nascimento sabia que o que ele fazia não era suficiente para a sociedade resolver o problema da violência, porém sabia que tinha que se esforçar o máximo para manter as coisas piores fora do bope, leia-se a corrupção e o comodismo.



Socialmente, o bope de fato se esforçava para realizar sua tarefa social, de inclusive dar porrada em boyzinho que consumia maconha, alimentando os traficantes, financiando armas, ao mesmo tempo que arrotavam consciência social.

Individualmente, o capitão Nascimento mantinha sua tenacidade em viver a justiça, sendo um policial no Rio de Janeiro, que mesmo sendo peão, tentava manter sua honra e sanidade mental. Vivia uma vida de família, e no final ele escolhe a mulher e o filho, treinando um substituto para seu cargo. Na vida real, Rodrigo Pimentel, que inspirou o personagem, fez isso. É justamente por isso que penso que o Tropa 1 é mais humano que o Tropa 2, porque é baseado numa pessoa real.



Quanto ao destino, o Tropa 1 mantinha no horizonte a idéia de justiça. O ser humano pode ser justo, pode fazer o bem, pode agir corretamente. O bope, apesar de não ser o exemplo moral mais interessante, mantinha um dado fundamental: se esforçava para fazer uma justiça que ia além da corrupção policial, a fragilidade do sistema judiciário e mesmo a hipocrisia e omissão da Igreja (põe na conta do Papa!).

Fiquei feliz com o Tropa 1 porque ele saiu do lugar comum da vitimização dos pobres. Claro que vivemos num sistema social injusto, e que historicamente estamos em débito com grande parte da população, mas existe o certo e o errado. E um pobre traficante que mata está errado e deve ser combatido. E morto se necessário.



Penso que minha pior decepção com o Tropa 2 seja essa. Não existe coerência no filme. Não existe uma integração entre essas três partes da moral que Lewis cita. Existe simplesmente uma descrição do sistema democrático em sua essência: hipócrita, frágil e interesseiro. Nada de novo. Qualquer aluno de primeiro ano de faculdade de ciências humanas e sociais descobre isso. Filme de universitário empolgado com a visão sistêmica: “não há nada a fazer, então vamos ao boteco beber cerveja e fumar maconha”. Como não adianta ser moral, buscar a justiça, então exploda-se tudo, porque a busca de verdade, inclusive da justiça, é apenas uma falácia para exercer interesses particulares. Logo, o que importa é entrar na guerra hipócrita de interesses e buscar o seu lado. Como disse, nada de novo. Qualquer documentário de ciências humanas mostra isso logo no primeiro ano de faculdade.



O filme é bom, mas penso que poderia aprofundar a coerência que percebi no primeiro filme. Falar mais da ficha limpa, de alguns políticos que lutam seriamente para realizar seu projeto. Sim, existem políticos assim, apesar do maconheiro e bêbado universitário adorar arrotar que não existe para justificar sua própria decadência.


O herói do Tropa 2 é o cara do direitos humanos. Que é burro ou hipócrita, porque luta na política contra corruptos, mas permite que a funcionária fume maconha. Ou seja, é conivente e alimenta o tráfico com sua própria funcionária, que compra corruptos contra os quais diz lutar. É burro, ou hipócrita, talvez porque queira como o deus no evangelho segundo Jesus Cristo, de Saramago, afirmar a existência de um inimigo, de um diabo, para poder crescer midiaticamente e politicamente junto à população. O cara dos direitos humanos é tão hipócrita quanto o falso moralista dos programas sensacionalistas da televisão.



O final do Tropa 2 me decepcionou. Quem assiste e não estuda as ciências humanas adora. Quem é relativista hipócrita adora, porque finalmente pode viver seu niilismo adolescente em paz, com a máscara de ser gente grande: “vamos ser maduros, a justiça enquanto universal verdadeiro não existe, existem apenas versões, logo não adianta se indignar com injustiças, mas sim aceitá-las e viver com elas”. Não precisava fazer filme para afirmar essa mensagem, basta ler qualquer professor de ensino médio de história, geografia, filosofia, jornalistas e afins.

Finalmente, como o Tropa 2 é um roteiro inventado, não inspirado numa história real, o roteirista caiu no lugar comum. Como disse, é claro que o sistema democrático é uma piada, uma falácia. E é claro que não temos outra alternativa. A única garantia é a busca de coerência moral, de projetos como o ficha limpa, que possam estimular a seriedade na vida pública. Temos que pensar na ação individual, pensar nos nossos atos, no destino da vida humana, pessoal e pública.



Tropa 2 é um bom filme. Vi muitos desses na faculdade nos primeiros anos. É óbvio que o capitão Nascimento teria problemas diferentes quando deixasse de ser um peão da polícia. Política é bem mais difícil e complexo que guerra. Mas essa constatação não muda os ideais pelos quais vale a pena lutar tanto na guerra quanto na política. Tropa 2 não me acrescentou nada. Tomara que o Tropa 3 traga de volta a coerência do Tropa 1.
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17 de junho de 2010

A copa do mundo, o Papa e o RolePlaying.

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A copa do mundo, o Papa e o RolePlaying.



Estou empolgado com a copa do mundo. Não é sempre que me empolgo com futebol, mas de fato essa copa está me empolgando. Talvez porque eu goste do estilo do Dunga. Não gostaria de tê-lo como chefe, ou como um caga-regra qualquer me enchendo o saco, mas penso que para comandar um time de futebol, é até legal ter o cara como técnico da seleção.


O Maradona também tem um estilo bacana. Meio mafioso, meio Dom Diego, coronel da aristocracia latino americana. Afetuoso com beijos e abraços e apoio para seus jogadores. Brincando com a jabulani e fazendo poses para as câmeras.


Entretanto o estilo Dunga é mais difícil de gostar. Por que ele não levou o Neimar e Ganso? O Ronaldinho Gaúcho? Enfim, é burro mesmo, contra o futebol arte.



Desconfio que essa hostilidade contra o Dunga seja um ressentimento contra todos os chefes, professores e pais que nos encheram o saco alguma vez. O pior é que ele coloca na mesa resultados. Copa das confederações, copa América, e medalha de bronze das olimpíadas (o Brasil nunca conquistou a medalha de ouro mesmo). Até a estréia ele venceu, com o minguado resultado de 2 a 1. Poderia ser pior, vejam a Espanha.



Em 1994 todo mundo reclamou do Parreira, com o Dunga capitão. Em 2002 todo mundo reclamou do Felipão retranqueiro. Vejamos até onde vai essa presepada.



E afinal de contas, o que isso tem a ver com o Role Playing?


Fiquei pensando na coisa do jogo. Existem valores no jogo que qualquer épico se extravasa. O doce gosto da vitória, a expectativa no conflito final, as estratégias que dão certo e o levantar de novo com a derrota. Nos jogos de Role Playing isso é lugar-comum.



Até o Papa reconhece o valor do jogo. Olha só uma notícia comentando um texto que ele escreveu:


CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 16 de junho de 2010 (ZENIT.org) – Joseph Ratzinger, quando ainda não era Papa, escreveu sobre o futebol, interessado pelo enorme impacto de eventos como a Copa do Mundo.


“Com sua periodicidade de quatro anos, a Copa do Mundo de Futebol demonstra ser um acontecimento que cativa centenas de milhões de pessoas”, reconhecia em um texto escrito nos anos oitenta, que se pode ler (em espanhol), no portal da revista Humanitas (www.humanitas.cl) da Pontifícia Universidade Católica de Chile.


“Não há quase nenhum outro acontecimento na terra que alcance uma repercussão de vastidão semelhante – acrescenta. O que demonstra que com isso está-se tocando algo radicalmente humano, e cabe perguntar-se onde se encontra o fundamento deste poder em jogo.”


O escrito foi recolhido em 1985 por um livro intitulado Suchen, was droben ist (Buscar o de cima). O então cardeal destaca nessas linhas que “como jogo de equipe, o futebol obriga a um ordenamento do próprio indivíduo dentro do conjunto; une através do objetivo comum: o êxito e o fracasso de cada um estão cifrados no êxito e no fracasso do conjunto”.


Ao que acrescenta: “o futebol ensina um enfrentamento limpo, em que a regra comum à qual o jogo se submete continua sendo o que une e vincula, ainda que na posição de adversários”.


O autor conclui que “a liberdade vive da regra, da disciplina que aprende o atuar conjunto e o correto enfrentamento, o ser independente do êxito exterior e da arbitrariedade, e desse modo chega a ser verdadeiramente livre".




Os jogos olímpicos surgiram pra isso. Para valorizar a competição como forma religiosa de nos aproximarmos dos deuses. O futebol é herdeiro dessa tradição humana. Podemos dizer que no nosso RolePlaying também podemos sentir uma breve prova do gosto dessa tradição, a competição esportiva, em cada mesa de jogo, em cada tensão do resultado dos dados.
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18 de maio de 2010

Os dois olhos do Dragão: Beowulf entre Borges e Tolkien.

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Estou escrevendo um artigo sobre o poema do Beowulf, anglo-saxão. É uma das fontes mais precisas do Tolkien. O último filme, como treinar seu dragão, recentemente nos cinemas, traz novamente esse símbolo tão importante da mitologia escandinava.
Devido ao Tolkien, esse símbolo, inclusive bíblico e babilônico, (Tiamat é o nome do drgaão que Gilgamesh, herói babilônico, tem que matar para fundar o mundo. E o dragão vermelho do Apocalipse cristão é famoso) se espalhou nos Role Playing medievais e épicos.
O argentino Jorge Luis Borges também é conhecido na literatura. Foi professor de inglês na universidade de Buenos Aires. Escreveu livros sobre a literatura germânica medieval e sobre a antologia anglosaxã. Deu atenção ao Beowulf, e escreveu poemas sobre o poema.
Como estou sem tempo de produzir algo mais elaborado atualmente, deixo alguns pontos que considero mais interessantes. Quando eu publicar o artigo, mando o link.
Livro El outro, el mismo. (1964).

Composición escrita em um ejemplar de La gesta de beowulf.

A veces me pregunto qué razones
Me mueven a estudiar sin esperanza
De precisión, mientras mi noche avanza,
La lengua de los ásperos sajoes.
Gastada por los años la memória.
Deja caer la en vano repetida.
Palabra y es así como mi vida.
Teje y deseje su cansada historia.
Será (me digo entonces) que de um modo
Secreto y suficiente el alma sabe
Que es inmortal y que su vasto y grave
Círculo abarca todo y puede todo.
Más Allá de este afan y de este verso
Me aguarda inagotable el universo. (BORGES, 1964)

"A linguagem anglo-saxã, o inglês antigo, estava, por sua aspereza mesma, predestinada à épica, isto é, à celebração da coragem e da lealdade. Por isso... é na descrição de batalhas que os poetas se saem especialmente bem. É como ouvíssemos o ruído das espadas, o golpe das lanças nos escudos, o tumulto dos gritos da batalha." (BORGES, 2002).

Em seu ensaio Beowulf: The Monsters and the critics (1936), Tolkien busca compreender esse poema enquanto poema. Eis o primeiro ponto importante. O valor literário em termos de beleza e força criativa. Tolkien ressalta esse ponto justamente porque quer delimitar sua crítica entre entender Beowulf como um documento histórico ou como um tratado teológico. Quer justamente fazer o que considera o meio termo entre ambos. Não é algo teórico, filosófico ou conceitual. É um poema escrito para retratar beleza, encantamento e arte, ou mesmo tempo que não é um documento histórico, porque não trata exatamente da história documental ou administrativa de qualquer instituição ou corpo burocrático. São mitos e lendas de um povo.

A expressão usada por Tolkien é que Bewoulf é uma torre (epopéia cristã), no qual seu poeta construtor usou pedras de uma construção mais antiga (os mitos escandinavos). Quando os estudiosos chegaram, começaram a questionar porque o poeta-construtor usou pedras novas em cima das construções antigas, e tentaram separar a construção mais antiga (mitos escandinavos) do suporte colocado (elementos da epopéia cristã), e acabaram destruindo a torre. A crítica de Tolkien é que esses estudiosos analíticos não entenderam que a torre tinha sido feita para ver o mar.

"The myth has other forms than the (now discredited) mythical allegory of nature: the sun, the seasons, the sea, and such things... The significance of a myth is not easily to be pinned on paper by analytical reasoning. It is at its best when it is presented by a poet who fells rather than makes explicit what his theme portends; who presents it incarnate in the world of history and geography, as our poet has done. Its defender is thus at a disadvantage: unless he is careful, and speaks in parables, he will kill what he is studying by allegory, and, what is more, probably with one that will not work. For myth is alive at once and in all its parts, and dies before it can be dissected[1] "(Tolkien, 1997, p.15)

So regarded Beowulf is, of course, an historical document of the first order for the study of the mood and thought of the period and one perhaps too litlle used for the purpose by professed historians. But it is the mood of the author, the essential cast of his imaginative apprehension of the world, that is my concern, not history for its own sake; I am interested in that time of fusion only as it may help us to understand the poem. And in the poem I think we may observe not confusion, a half-hearted or a muddled business, but a fusion that has ocurred at a given point of contact between old and new, a product of thought and deep emotion. One of the most potent elements in that fusion is the Northern courage: the theory of courage, which is the great contribution of early Northern literature[2] Tolkien, 1997, p. 20)


Voltamos a Borges, e podemos ver como o argentino entende parecido com o Tolkien.

...poderíamos pensar que o autor de Beowulf leu a Eneida, e que se propôs a escrever uma Eneida germânica, que então escreveu o Beowulf – isso foi escrito na Inglaterra, mas o autor usou lendas escandinavas; todas as personagens são dinamarquesas, ou procedem da Suécia. Mas naquela época não existia a idéia de que um escritor tivesse que escrever sobre o que é contemporâneo ou local, pelo contrário, existia o prestígio daquilo que estava longe, e talvez houvesse certa saudade do paganismo entre os anglo-saxões. (BORGES, 2009)

A arte e a literartura... teriam que se libertar do tempo. Muitas vezes me disseram que a arte depende da política ou da história. Não, eu acho que isso é totalmente falso. (BORGES, 2009)


O quanto disso podemos encontrar em nossos jogos de Role Playing?

[1] “O mito tem outras formas do que a (agora disacreditada) alegoria mítica da natureza: o sol, as estações, o mar e essas coisas... O significado de um mito não é facilmente posto no papel pela racionalidade analítica. Este é melhor quando é apresentado por um poeta que sente ao invés de explicitar o que o tema ostenta; que o apresenta encarnado no mundo da história e da geografia, como nosso poeta tem feito. Seu defensor está em desvantagem: ao não ser que ele seja cuidadoso e fale em parábolas, ele vai matar o que está estudando através da alegoriua, e, mais ainda, provavelmente isso não vai funcionar. Pois o mito está vivo como um um todo e em todas as suas partes, e morre antes que possa ser dissecado.” (tradução própria).
[2] “Beowulf é considerado, naturalmente, um documento histórico da primeira ordem para o estudo do modo e do pensamento do período e um talvez demasiado pouco usado para a finalidade por eminentes historiadores. Mas é o modo do autor, o molde essencial de sua apreensão imaginativa do mundo, que é meu interesse, não historia por sua própria causa; Eu estou interessado nesta época da fusão somente enquanto pode nos ajudar compreender o poema. E no poema eu penso que nós podemos observar não a confusão, um coração dividido ou negócios atrapalhados, mas uma fusão que tenha ocorrida em um ponto certo no contato entre velho e novo, um produto do pensamento e a emoção profunda. Um dos elementos mais potentes nessa fusão é a coragem nortista: a teoria da coragem, que á a grande contribuição da inicial literatura nortista.” (tradução própria)

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25 de abril de 2010

Verdade, Estórias e Role Playing.

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Verdade, Estórias e Role Playing.


Escrever uma tese de doutorado é a arte de se aborrecer. Os motivos secretos e revelados das pessoas que se decidem pela carreira acadêmica são tão misteriosos quanto a realidade que a academia tem a pretensão de investigar. Desce Platão que fundou a Academia no século IV a.C. até hoje, com as indexações de qualidade e mecanismos de classificações do MEC e de ranking de cursos e programas de pós-graduação, a academia mantém seu fundamento na investigação da verdade.

Quando falamos verdade, o arrepio que a sensibilidade democrática prega hoje dispara de forma gritante. Todos sabemos que a verdade depende do ponto de vista, que cada tem a sua verdade, que tudo depende de quem está envolvido em que discussão sobre que assunto. Enfim, a única verdade é o contexto.

A escritora norte-americana Bárbara Herrnstein Smith, em seu livro Crença e Resistência,(1997) demonstra claramente que a afirmação da verdade é resultado do processo de evolução no humano. Em chave darwinista, mostra como desenvolvemos a capacidade de pensar, e produzir linguagem, e assim toda uma frente nova no processo adaptativo se abre. Precisamos de uma noção definitiva para continuarmos a pensar e viver. Como linguagem, nosso pensamento afeta nosso comportamento e nossas ações. A verdade em si mesma não existe. Existe apenas a necessidade humana de conceber algo como verdadeiro. A verdade é que precisamos inventar a verdade.

Essa concepção entre verdade e necessidade é a natureza humana. A verdade não é um instrumento de opressão por pessoas com vocação totalitária. È forçoso admitir que de fato muitas vezes sob a égide da verdade foram realizadas ações cruentas e sanguinárias. Mas também sem esse adorno da verdade a humanidade realizou massacres; Pessoas matam por muitos motivos. Ditadores mutilam e não gostam de quem diz a verdade. A verdade também já foi bandeira de muitos rebeldes contra regimes políticos. A verdade, como a humanidade, é contraditória e de difícil apreensão.

Não apenas em âmbito político que encontramos a verdade. Alguém que descobre que está com AIDS ou câncer, percebe que a verdade é algo muito concreto que ultrapassa uma dimensão psicológica e lingüística. Um avião voando na direção de um prédio vai arrebentar o prédio. Isso é verdade. A ciência, filha da filosofia na busca da verdade, está do lado da democracia, filha da filosofia, em sua gestão no mundo moderno. A verdade é o que nos faz andar.

Existe uma forma de viver a verdade no Role Playing? Que verdade é essa?

O escritor brasileiro Olavo de Carvalho, em seu livro Aristóteles em Nova Perspectiva (1996) retoma o pensamento do grande filósofo grego. E apresenta sua teoria dos quatro discursos. Entre a dialética (afirmações e negações de uma matéria), a retórica (produzir convencimento a uma argumentação), a analítica (ou lógica, capacidade impor uma tese a determinada idéia de forma inquestionável), existe a arte poética. Todos esses discursos em Aristóteles, diz Olavo de Carvalho, são formas de buscar a tão conturbada verdade.

Assim, na Arte Poética, Aristóteles fala que a poesia pode revelar mais verdade que a história, justamente porque a poesia fala do universal, numa criação que abarca e pode ser identificada com a humanidade (o herói possui a justiça e a heroína a beleza enquanto realidades universais), enquanto a história fala do particular, aquela pessoa, aquele evento (conta-se a história de Alexandre, de Leônidas de Sócrates). Hesíodo, poeta grego do século VIII a.C., fala em sua Teogonia, poema que fala da criação dos deuses, que inspirado pelas musas ao escrever seus poemas, escreve que as musas podem falar verdade e mentira. Cabe ao poeta distinguir entre elas.

Em nosso Role Playing, a diversão é o fundamento. É um jogo em essência. Porém, o divertimento acontece sempre através da criação de estórias. Estórias que carregam sempre uma tensão entre os movimentos psicológicos de cada integrante do grupo, jogadores e mestre, e entre a verdade dessas exigências universais que são objetivas, que extrapolam movimentos psicológicos e contextuais do jogador em particular. A poética verdade fala ao universal.

Essa é a criação poética que acontece nos jogos. Que podem ser sátiras, elegias, comédias, tragédias e épicos. A profundidade com que isso acontece e a repercussão das palavras em cada indivíduo sempre possuem determinações complexas. A verdade existe mesmo que, como a realidade nos mostra, seja sempre complexa.
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7 de abril de 2010

Pedofilia, religião e Role Playing.

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Tenho acompanhado a mídia falando de padres pedófilos. Me correspondi com um grande amigo do Role Playing sobre isso. Gostei de como ficou uma determinada resposta, e transcrevo minha parte.

Grande Mestre,

Fico muito contente receber notícias suas. Fiquei sabendo que estavas doente, e isso me preocupou. Folgo em saber que estás melhor.

Agradeço suas considerações, e mais ainda o trabalho de ter enviado.

Acredito que Deus existe, principalmente através das virtudes que ele concede a humanidade. A amizade, virtude fundadora do Estado segundo Aristóteles, foi um caminho para Deus que encontrei em nossos jogos de rpg. Nesses jogos debatíamos sobre coragem, coerência, honra e amor. Todas virtudes que podem ser consideradas atributos de Deus. Todo ateu que busca esses valores de boa vontade estão próximos de Deus, quer eles saibam, e mesmo queiram, ou não.

Por isso a pedofilia me enoja. A destruição desse senso do elevado, do sublime, do vislumbre do maravilhoso que pode acontecer na convivência humana, é algo pavoroso. Padres assim nos fazem quase sentir nostalgia da inquisição. Quase.

Não tenho nada contra homossexuais. Tenho contra a atitude cínica, doente e cruel de dizer que o impulso religioso é homossexualismo recalcado e reprimido. Em alguns casos pode até ser, mas esses homossexuais são os primeiros a dividir as coisas. Uma coisa é o impulso que eu sinto, outra coisa é a virtude que eu busco. E isso é digno e válido como caminho da felicidade, que é outro atributo de Deus.

A coisa é tão grave que até o C.S. Lewis teve que escrever, em seu capítulo sobre amizade do livro Os quatro amores, que a relação que ele tinha com os inklings (escritores britânicos entre eles o tolkien) não tinha caráter homossexual. Era a amizade, desarmada e sincera, daquelas de beijar os amigos de forma afetuosa e limpa. Comer, beber e contar estórias. Se emocionar e partilhar confidências. Como os hobbits.

O que mais me dói nesses casos de pedofilia e de como a mídia trata é a insistência em trazer os conteúdos mais fundamentais da fé católica como forma de perversão. O celibato, seja a pessoa homossexual ou heterossexual, é uma escolha de vida profunda, calcada nesses valores centrais da fé. É viver em missão. Porque ninguém chama atenção dos santos, históricos e recentes, que viveram isso em plenitude? Transformar isso numa perversão que inevitavelmente transformará a pessoa num pedófilo ou num hipócrita degenerado é confundir a árvore com a floresta.

Concordo com tua comparação do pânico moral em relação ao rpg, às outras religiões e aos quadrinhos. Os homens buscam sempre um bode expiatório para se livrar de suas próprias neuras. Nada mais distante da justiça, da verdade, do belo e do bem. Nada mais distante de Deus. Os pedófilos tem que ser punidos com absoluta certeza. Eles traíram de forma fulcral o que existe de mais elevado na alma humana, a imaginação, a contemplação e a fé. Porém eles também merecem a misericórdia de Deus, de forma a pagar seus crimes e pecados, inclusive judicialmente e canonicamente, mas com a oportunidade de recomeçar.

Aos amigos ausentes, amores perdidos e velhos deuses!

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30 de março de 2010

Religião, Indústria Cultural e Role Playing – Parte II

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Na última reflexão, falei da indústria cultural. Ao continuar nessa linha, penso ser importante dizer o que é isso. No livro a Dialética do esclarecimento, de 1947, os filósofos alemães Teodoro Adorno e Max Horkheimer, demonstraram como o conceito de cultura[1] (aquilo que nos diferencia da natureza, o que produzimos como bens simbólicos e imateriais, como a linguagem, a arte, a culinária, a política, a religião), está influenciado pelo capitalismo como forma de dominação de uma classe superior, a burguesia, que domestica a classe trabalhadora urbana com pedaços de entretenimento que iludem a dão vazão aos anseios humanos de forma alienante.

Em outras palavras, te dou um sonho pelo seu trabalho duro, forçado. Enquanto você fizer as coisas do jeito certo, deixo você ver televisão e cinema para você esquecer seus sofrimentos e injustiças cotidianas. Eis a indústria cultural.

E como o Role Playing[2] é resultado da Indústria Cultural, podemos dizer que nós estamos no meio dessa conversa. Quem joga há muito tempo sabe o quanto de vazão e descarrego podemos fazer num Role Playing. É terapêutico, de verdade, inclusive com elementos de psicodrama, técnica desenvolvida pelo psicólogo Jacob Moreno. Tratar de suas tensões cotidianas, e ao mesmo tempo de traumas profundos da história pessoal com certeza é um dos fascínios que o Role Playing exerce nos grupos.

Porém, nessa linha de indústria cultural, o que existe é uma dominação. Uma forma de dormência, e não de libertação. Como temos empregos mesquinhos, somos intelectualmente medíocres, afetivamente covardes, emocionalmente isolados, vivemos uma vida onde não nos realizamos, não abordamos as questões diretamente, com o objetivo terapêutico de resolvê-las, mas apenas nos drogamos com motivo de fugir da dura realidade, que por sinal favorece a uma elite que nos quer assim.

Pois bem. Crítica dura. Ao invés de irmos ás fontes literárias e artísticas fundamentais, apenas nos contentamos com gotas pasteurizadas e enlatadas do resumo do resumo. Afinal de contas, quantos que jogam Role Playing medieval já leram algum livro do ciclo arturiano, autores como Chrétien de Troyes ou Béroul, do século XII? Ou leram a Ilíada e a Odisséia do Homero? Quantos leram os livros de Tolkien? (não vale O Senhor dos Anéis, que é uma ponta do iceberg). Quem gosta de Vampiro: a máscara e leu o Bram Stoker ou a Ane Rice e estudou historicamente o Drácula? Quem gosta de Mago: A Ascensão e leu A Tempestade e Sonho de uma Noite de Verão de Shakespeare, Fausto de Goethe, ou investigou os fundamentos do tarô de Marselha?

Não temos obrigação disso, é lógico. Afinal o jogo é uma diversão. E quem disse que isso é bom afinal de contas? Se conseguirmos dar risada e relaxar o suficiente para levantar e ir trabalhar na segunda-feira, atingimos o objetivo de um bom Role Playing.

Aristóteles, em A Arte Poética, dividia a poesia grega em comédia, epopéia e tragédia. A primeira falava das coisas ridículas, manias inofensivas de pessoas que eram desajustadas, ou censurava comportamentos que prejudicavam a vida na pólis. A ênfase era mostrar quem era ridículo, fazer rir e nos educar através disso. A segunda era das grandes narrativas que abrangiam muito tempo, com muitos episódios e personagens, com uma variedade cósmica grande, como Homero. A poesia épica, a epopéia, era a religião grega, dos heróis, dos deuses e dos grandes feitos fundadores da civilização grega. Lá estava a jornada dos heróis[3], que era bom e virtuoso, mas que enfrentava o destino e o caos, muitas vezes o levando ao final desesperador. Era o lugar do sobrenatural, dos monstros, do maravilhoso e do fantástico.

A terceira era a tragédia. Especificamente no drama do protagonista condenado a perdição por uma série de erros e confusões. Seu destino era trágico[4], e com isso toda a cidade atingia a catarse, a purificação de suas próprias dúvidas e dilemas. Era uma forma de todo mundo chorar, se libertar de seus medos e encontrar o alívio de ainda ter uma vida, uma família e uma esperança de não ter o mesmo destino do herói trágico.

No Role Playing, existe uma chance de também podemos encontrar essas realidades da arte. Quanto mais profunda é a relação com o texto a ser criado coletivamente, com a preocupação e sensibilidade de trazer elementos profundos sobre a vida e seus dilemas, podemos nos aproximar da catarse aristotélica, e nos fazer purificar de traumas e crescer diante dos desafios da vida cotidiana, e não apenas estarmos submetidos à indústria cultural alienante, sonambúlica e esmagadora.




[1] O termo cultura tem muitas significações. Um dos registros mais antigos é de Cícero, senador romano, no sentido duplo de dizer como trabalhar (cultivar) e ao mesmo tempo de como adorar os deuses (cultuar). Assim, a cultura no sentido antigo, tem a dimensão do trabalho material (mantido nos termos de agricultura) e também no imaterial e simbólico (arte, religião e linguagem).

[2] Duas autoras que escrevem sobre isso, com visões diferentes: a Andréa Pavão, no livro A Aventura da leitura e escrita entre os mestres de RPG e a Sônia Rodrigues, no seu livro Role Playing Game e a Pedagogia da Imaginação no Brasil. As duas fazem essa relação entre indústria cultural e RPG.

[3] O Joseph Campbell, orientador do George Lucas para o roteiro de Star Wars, apresenta no livro O Herói de Mil Faces, a idéia de monomito, que é uma estrutura narrativa única em várias culturas e religiões, que mostra uma jornada específica que se repete em cada mitologia. Associando essa estrutura narrativa com a psicanálise, propicia uma teoria bem interessante de enfrentar os desafios do mundo moderno através da leitura e reflexão, ou Role Playing, de narrativas clássicas.

[4] Tragos do grego é o bode. O bode expiatório que reunia todas as neuras e violências da cidade, que condenavam artisticamente uma situação, um personagem ou um problema.

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