28 de novembro de 2009

Kassius Kendril: Os Pilares dos Mártires - Parte I

O sol crepuscular despedia-se por entre as colinas que rodeavam o inóspito vale ao mesmo tempo em que, paulatinamente, a escuridão envolvia tudo como em um eclipse súbito e ameaçador. Fazia tempo que ele sentia a aproximação de seu algoz, mas continuava a caminhar, indiferente, pela estrada serpenteante.

Em certo ponto de sua caminhada ele distinguiu um clarão no horizonte. Chamas. Temeu o pior.

- Sua busca só trará mais sofrimento aos inocentes, criança tola! – alguém sussurou nas sombras. A voz malignamente doce e deliciosamente cruel propagou-se para todos os lados, confundindo os sentidos do viajante solitário. O inimigo finalmente se anunciara.

Ato contínuo, o guerreiro retirou o escudo das costas e desembainhou a espada da cintura. Por fim, tocou o pingente sagrado que pendia à altura do peito. Mal terminou sua ação, uma enorme lamina curva cintilou no ar, faminta por sangue, em sua direção.

Virou-se, escudo pronto: bloqueou o primeiro ataque. Havia outros. Aparou-os com a espada em uma velocidade estonteante. Faíscas rugiram furiosas após cada contato entre as armas. A investida inimiga não terminara. O vulto ergueu a arma em direção ao céu. Milésimos depois a lâmina da foice penetrou fundo o chão sem encontrar a carne de sua presa.

Três metros adiante o guerreiro observava, já em prontidão, a frustração do inimigo que não conseguira nem arranhar-lhe a armadura.

- Tenho pressa e você não conseguirá me derrotar – a frieza da voz era fulminante. Olhos serenos e seguros demais para alguém tão jovem.

- Será? – perguntou a criatura, rindo da situação.

Seu interlocutor era uma mulher estonteante. Pele imaculadamente alva, cabelos bruxuleantes como o lume de uma fogueira, olhar opaco, vibrante, dotado de uma malícia descomunal e um corpo curvilíneo, delicado e excitante demais para pertencer àquele mundo. Trajava uma armadura sutil de metal enegrecido que lhe protegia as partes íntimas, seios, joelhos e antebraço. O único traço que denunciava sua natureza demoníaca era o par de chifres na fronte e as asas rubras nas costas. Uma súcubo.

- Fazia tempo que não lutava contra um humano tão forte – ela lambeu os lábios. – Acho que não faria nenhum mal um pouco de divertimento antes de cumprir minha missão.

- A Vila de Telindyr fica mais a frente – apontou o guerreiro. - Não diga que você...

- Não seja tão dramático. Eram pobres camponeses que viviam lambuzados em seu próprio esterco e comiam feno como éguas moribundas. Mortos, seus corpos ao menos servirão como adubo e alimento para os corvos e conferirão à localidade um pouco mais de graça! – debochou a criatura.

O guerreiro contraiu os músculos e avançou em direção à criatura. Estocou. Errou por centímetros seu busto. Recebeu um golpe lateral que bloqueou eximiamente com o escudo antes que seus pulmões fossem trespassados. Usou as pernas para não perder o equilíbrio, girou nos calcanhares e revidou em um corte limpo. A criatura aparou o golpe com desenvoltura, usando a enorme lâmina da foice com agilidade sobrenatural. O guerreiro arriscou mais três golpes. Sem resultado. A abissal dançou em sua frente, animada, como se previsse seus golpes.

- Demais para acompanhar meus movimentos? – instigou perversamente, sugerindo uma incomparável diferença entre poderes.

Ele não se deixaria ludibriar. Não desistiria tão facilmente. Havia mais para demonstrar. Preparou-se para uma nova investida, todavia...

Lento. Lento demais. A criatura praticamente sumiu diante de seus olhos tamanha a velocidade de seu deslocamento. Garras foram retraídas e fisgaram-no. Sua única reação foi recuar após o susto, retomar o fôlego e avaliar os danos. Tocou o rosto: de um corte fino, mas profundo, escorria seu sangue sagrado. Por pouco não perdera um de seus olhos. Deveria tomar cuidado dali para frente. Este inimigo era diferente dos outros que enfrentara até então.

- É realmente uma pena que eu não tenha vindo aqui para matá-lo, garoto. – ela degustou o sangue que pendia nas suas retráteis e afiadas garras. - Meu amo tem outros planos para você.

- Ouvi dizer que demônios só confabulam sobre aquilo que temem.

- Temer? Não me faça rir. O que Helladramus teme ele cuida pessoalmente. Seu estúpido irmão tratou de aprender essa lição, não é mesmo? Admito que ele era bem mais habilidoso que você... O que me faz cogitar quais suas chances de ser bem sucedido nesta empreitada.

As lembranças dolorosas retornaram à mente do santo e com elas aquele sentimento que ele precisava reprimir: ódio.

- Ah, e, por favor, não finja que se sente mal por aqueles que viviam em Telindyr. Você não combina com o tipo sensível. Posso detectar em você uma vontade perversa, quase maligna, de me destruir, mas... – refletiu ela -, diferente de seu falecido irmão e dos demais paladinos que já vagaram por este mundo, você não “caça” por uma causa nobre. Longe disso...

- Suas impressões pouco me importam – rebateu o outro, no limite de sua tolerância.

- Você confia demais em suas habilidades e sua prepotência será sua perdição. Até agora me pergunto por que meu amo deseja tanto que eu lhe repasse esta mensagem. Preferível seria deixar você morrer imerso neste orgulho febril. Seria tão mais simples... – meneou a cabeça, inconformada.

- Está escrito - apregoou ele imediatamente - “O Dom nasce com o santo e não o inverso”, e mais: “ Não vacilarás em tua obra, porquanto se o fizeres, decepcionarás teus súditos”.
A criatura teve vontade de vomitar risadas ao notar que o guerreiro ainda se atinha a ideais tão ultrapassados e primitivos. Uma ladainha patética que nada representava agora que o mundo havia tombado diante do caos.

- Quais súditos você não deseja decepcionar? Quantos fios de esperança restaram em uma era consumida pela desgraça? Você não persegue nada, senão uma vingança pessoal. Antes mesmo que comece, você cavou sua cova e sabe disso. Como último de sua linhagem, carregas o fardo de milhares de vidas e por isso estás disposto a ir até o limite. Disposto a abandonar tudo e a todos.

- Não se contesta o destino. Cumpre-o.

- Destino? Que bom que você tocou neste assunto, pois chegamos ao ponto chave de minha missão: fazer-lhe-ei uma revelação, garoto. Escute bem, porque é seu próprio destino que está em jogo.

Ele escutou.

- “Este é somente o início de um longo caminho, onde muitos olhos serão fechados e abertos. Em suas paradas encontrarás o culto, o pesadelo, a sombra. E os pilares dos mártires. A mentira da verdade. Talvez, o Deus da Vingança. A perdição”.

- Eu deveria saber o que significa?

- Nem eu sei, mas você terá tempo para pensar no assunto. De qualquer forma, minha missão está cumprida. – ela recitou algumas palavras ininteligíveis e desapareceu, deixando um tênue teor de enxofre do ambiente.

As escaldantes chamas no horizonte continuavam ali, convidativas. E havia uma “charada” para ser solucionada.

O paladino embainhou a espada. Suspirou. Tinha consciência que os problemas aumentariam a cada passo adiante e em Telindyr não seria diferente. Não houve, porém, exasperação. Limitou-se a pedir perdão por não ter cumprido seu papel satisfatoriamente e, como se nada houvesse ocorrido, prosseguiu lacônico.

Seu nome: Kassius Kendril.

Continua...

Autor: Diego Reymão Moreira, Belém - PA.
Contato: diegomusta@hotmail.com

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Nós do RPG Pará gostariamos de agradecer o Diego Moreira por ter participado do espaço "RPG Pará e você! Tudo Haver!".

Aqueles que também estiverem interessados em participar desse espaço e publicar suas idéias e outras coisas mais sobre RPG, deverão seguir as orientações no seguinte link: RPG Pará e Você! Tudo haver!

4 comentários:

buda disse...

Parabéns, muito bom o texto.

Gilson disse...

Bernard Cornwell da fantasia medieval e papa-xibé.
Parabéns!

Gilson, papa-xibé com orgulho

John Bogéa disse...

bacana

Michael Wevanne disse...

soh achei que faltou um pouco mais de descriçao do protagonista...

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