15 de março de 2010

As estórias, o jogo e a reflexão.

As estórias, o jogo e a reflexão.


A primeira impressão é a que fica. Escrevo com a página vazia, com os sons do teclado. Tenho diante de mim uma tarefa: contribuir com um excelente blog de RPG que conheço. Digo que excelente por duas razões: porque onde estão grandes amigos, sendo amizade é um ponto importante nas minhas reflexões, e porque adoro a idéia de um lugar para manter vivo o RPG. Nada melhor que missões de honra e tenacidade, principalmente na dedicação a excelência, na liberdade desértica, ora desesperadora e ora patética, do mundo pós-moderno.
É com esse espírito que quero começar essa coluna. Escrevendo em primeira pessoa apenas cartas, epístolas, mensagens. A proposta de uma troca de correspondências com o leitor imaginário que me responderá nos comentários ou em seus próprios blogs e espaços de teclar. Vou me deixar levar sempre por um devaneio e uma poética na reflexão que nos aproxima: a arte de narrar, de contar estórias (e afirmo propositalmente estórias e não histórias) que acabam por contar nossas próprias histórias que se confundem com a História de que partilhamos com todas as histórias e estórias que existem.
Sou professor e pesquisador, e ainda que me permita não escrever artigos acadêmicos, de estrutura com citações e notas de rodapé (algumas notas são inevitáveis, ainda que meio sem sentido num blog, que qualquer um pode jogar na Wikipédia ou no Google para saber quase tudo sobre uma palavra, nome ou conceito. É a nossa liberdade pós-moderna afinal de contas), é confortável que eu também me permita trazer para nossa conversa outros que escreveram sobre as coisas que gostamos.
Nesse caso, para fundamentar a divisão acima, lembro o Tolkien (1) , o velho mestre de seu legendarium da Terra-Média. Seu ensaio On Fairy-Stories, central em qualquer aventura na compreensão do que é contar uma estória, usa a palavra story e stories, e não tale ou tales, e muito menos history. Não sou professor de lingüística, como ele era, mas gosto da tradução ousada de Reinaldo José Lopes, proposta em sua dissertação de mestrado na lingüística da USP (2) .
A ressurreição que Lopes faz da palavra estória em português, bastante conhecida pelas Primeiras Estórias, de Guimarães Rosa, nos relembra da época arcaica quando dividíamos as estórias, que eram inventadas, das histórias (3) , que eram reais que aconteciam com pessoas reais.
Pois para o nosso velho mestre Tolkien, as estórias são diferentes dos contos, porque se aproximam da realidade de certas perspectivas que são diferentes tanto dos contos quanto das histórias. Não são fairy-tales que interessam a Tolkien, são Fairy-stories. A diferença central, além da realidade e ficção, é a seriedade com que as estórias trazem seu desenrolar e seu mistério. Os contos são para crianças, como a chapeuzinho vermelho versão Walt Disney, ou o Rei Leão, ou Era do Gelo e Espanta-tubarões e mesmo o simpático Nemo. As estórias são universais.
Não que um adulto não posso se divertir com contos de criança. São excelentes programas para fazer com filhos, mas as exigências estruturais de um adulto, (em formas de beleza, bondade, justiça, felicidade, prazer, verdade) em termos existenciais e de reflexão, são diferentes das crianças. Nós talvez saibamos que existe a fantasia e que ela é saudável. E muitas vezes temos que deixar essa nossa dimensão jorrar de forma saudável, porque como todo orc (4) sabe, dor e desespero sem o devido cuidado podem deformar até a mais bela e pura das criaturas.
Porém nós também sabemos que temos contas a pagar. Que a banalidade (para usar um termo White Wolf da série Changeling: The Dreaming) (5), vai nos atingir quando chegarmos perto dos 30 anos e vamos nos transformar em grumpies, os barbas cinzentas. E então vamos nos assentar, e começar a sentir saudades, nostalgia. E as memórias podem começar a ser mais tentadoras que os sonhos do vindouro.
Nesse caso, Tolkien afirma que estórias são importantes para gente madura, que sabe o que é cuidar de gente. Cuidar de filhos, da esposas, de pais e mães. De cuidar de uma família, de um país, de uma empresa e de um emprego. As estórias podem nos servir de consolação, de escape e de recuperação. Não como alucinação covarde, como os abusos da droga de quem não tem peito de enfrentar a vida e ri como retardado, mas como um santuário onde recupero forças e entrego minhas lamentações, desafios e desesperos para um lugar onde posso enfrentar tudo isso de outra perspectiva.
Atualmente tenho meditado bastante sobre essas idéias do velho mestre britânico. Como professor de ensino médio e de ensino superior, a relação humana e seus fundamentos estão no meu cotidiano. Ganho dinheiro para fazer isso. É meu ofício diário, minha labuta cotidiana.
Para irmos caminhando para o fim de nossa primeira conversa, digo que um dos meus focos de interesse é como o Role Playing pode ser um veículo e um meio para construirmos essas estórias entre nós. Nada pretensioso, porque a melhor forma de aniquilar as funções das estórias de fadas é forçar seu desenvolvimento numa estrutura cartesiana e positivista. As estórias devem ser contadas, poeticamente e sempre no relaxamento. Existe uma diferença abissal entre contemplar uma bela paisagem ou se deliciar com música de boa qualidade e verificar no googlemaps um endereço ou baixar no celular um toque engraçado. Ambos são importantes, mas com significados diferentes. Penso que um bom Role Playing de contar estórias deve ser direcionado para a contemplação que para a técnica.
São apenas especulações de um jogador de trinta anos que tem como ofício a pesquisa sobre seres humanos e seus significados. Tarefa inútil para muitos. Talvez seja mesmo. Um dos melhores jogos que tive em minha adolescência foram os BloodWarriors, um grupo de caitiffs do Vampiro: A Máscara(6). Nada mais sanguinário. Fizemos o grupo com o objetivo de aniquilar a aventura de um amigo nosso que era um mestre muito, mas muito chato! Foi hilário e mais bagunceiro impossível. O jogo virou, nosso mestre topou o desafio, e dávamos risadas enquanto explodíamos Nova York e várias cidades nos arredores. Jogamos durante uns dois anos. Nada mais adolescente. Jogávamos bêbados e escutando música punk. Ainda dou risadas solitárias quando lembro daquilo, como estou fazendo agora.
Todavia, o foco onde quero chegar com as reflexões das estórias de fadas tolkienianas é outra forma de encarar o Role-Playing. Chego ao fim desse primeiro escrito com um convite aqueles que se interessam pelo significado da vida permeado por essas exigências estruturais das quais me referi (beleza, verdade, bondade, prazer, felicidade, justiça) e que tem certa intuição de que através do Role Playing é possível viver essas realidades numa reunião com amigos, esposas e companheiros de viagem que compartilharão um sonho que pode ecoar uma realidade muitas vezes mais sólida que nosso cotidiano cheio de tarefas mecânicas e sonambúlicas de frases feitas e condicionamentos publicitários que são perigosos e cheios de contradições.
Contar essas estórias e vê-las ganhando vida e revelando dramas e conquistas que nos impulsionam a viver nossos dramas e conquistas pode ser um caminho para a contemplação da própria vida. Perceber que, lentamente algo sai de nossas imaginações, desejos e diálogos, de repente, possui ecos e referências que podem iluminar problemas reais e buscas prementes de significado. Então, um transbordamento do sonho e da narrativa, das Estórias, pode fazer companhia. Uma dádiva, uma graça, um presente.



Notas de Rodapé.

[1] John Ronald Ruel Tolkien, professor e escritor britânico, que escreveu entre inúmeras outras obras O Senhor dos Anéis e O Hobbit. Gosto muito dele e vou falar bastante dele.

[2] (http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=29044). O domínio público é um site do governo bem interessante para acesso a pesquisas acadêmicas no Brasil. Informação de qualidade de graça e confiável.

[3] Embora Ronald Kyrmse, outro especialista em Tolkien tenha traduzido Histórias de fadas na tradução da Conrad editora.

[4] Para Tolkien os orc são elfos torturados até se corromperem. Ver O Silmarilion.

[5] Falo do velho mundo das trevas, e confesso que nunca joguei Changeling, mas recentemente li o livro para enriquecer um jogo de Mago: Cruzada dos feiticeiros, que estou narrando. www.rpg-mago.blogspot.com. Me impressionei com a riqueza do jogo e com a aproximação com os pensamentos do também professor e britânico C.S. Lewis, escritor de Crônicas de Nárnia e grande amigo de Tolkien. Em outro momento posso falar da diferença de escritos e pensamentos dos dois.

[6] Depois de jogar muita fantasia medieval, mergulhei no Vampire. A organização do Belém by Night e do Brazil by Night e jogar o São Paulo by Night foram experiências centrais como jogador e narrador. Um dos melhores jogos que joguei foi o Transylvania Chronicles. Apesar disso, cheguei a conclusão que o horror pessoal do Vampire tem limitações contundentes para a visão que levantei nesse escrito. Não quero cuspir no prato que comi, mas a proposta de fratricídio no centro da temática do jogo é bem complicada de sustentar como elemento estético contemplador que não seja da tragédia. Claro que a tragédia é um estilo poderoso, e profundo, mas deixo de lado essa linha para desenvolver uma mais específica, que também abarca elementos trágicos, que vou esclarecendo em




7 comentários:

Gilson disse...

Muito bom!

Gilson

Fabi Dias disse...

Obrigada por me ensinar a contar e ouvir estórias!

Fabi Dias disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Diego Genu Klautau disse...

Fabiana, mi amore. Ainda contaremos muitas estórias juntos. Tá só começando.

Diego Genu Klautau disse...

Grande Gilson. Obrigado pela presença. Estamos no mesmo barco.

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Grande Diego,

Post bem interessante...

Um grande abraço,

Hugo Marcelo

Diego Genu Klautau disse...

Doctor Hugô!
Obrigado pela mensagem!

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