14 de dezembro de 2011

Reflexões no Espelho

Autor: Elves Cunha


Recentemente iniciei uma história de Mago: O Despertar para o meu grupo atual, aproveitando que eu nunca havia testado o cenário, e percebi uma coisa muito interessante.

Todos nós jogamos a mais ou menos 2 ou 3 anos, começando quando tive coragem de mestrar Vampiro na primeira vez. Nossas partidas eram extremamente divertidas, porque somos todos amigos e eles tem uma tendência mais do que a monstra para barulho e avacalhação.


No início eu me irritava muito, pois eles não respeitavam os temas do jogo e nem os conceitos dos próprios personagens, além de sempre brincarem com qualquer situação, muitas vezes detonando o clima de terror que eu tentava criar, matando uns aos outros com suas disciplinas e explodindo bares quando alguém olhava feio pra alguém do grupo.

Mas claro que eu tentei corrigir isso, fazendo como os livros explicam. Muitas vezes foram forçados a pagarem seus erros com castigos por parte da corte do Príncipe, mas sempre davam um jeito de burlar a história e se dar bem. Cheguei a ameaçar de morte e um julgamento foi necessário para que eles percebessem que estavam fazendo besteiras. E mesmo assim ainda conseguiram convencer uma parcela dos membros anarquistas da cidade sobre a tirania do atual regime com uma série de acontecimentos mentirosos misturados a uns poucos que eu deixei escapar. Percebi que eles jogavam bem sob pressão e o jogo fluía melhor assim. Deixei que unissem forças com muita gente que não prestava e começarem uma guerra civil na cidade, eliminando o coitado do príncipe e colocando um ancião anarquista louco no lugar. Era uma coisa caótica assim misturada a muitas risadas e piadas. Teve até uma história onde o Teatro Da Paz foi incendiado.

Com o tempo comecei a testar RPG’s mais simples pra confusão mesmo, como o 3D&T e outros RPG’s “farofa” que eu fazia, mas o incrível é que eles sempre queriam jogar Mundo das Trevas de novo e outros sistemas mais complicados como D20, apenas para novamente fazer uma super baderna. Então, em um belo dia, mandei tudo pro ar e resolvi entrar na sacanagem também, mostrando coisas cada vez mais psicodélicas nas minhas narrações e altas situações sexuais embaraçosas que eles deveriam enfrentar além dos antagonistas normais. Foi uma boa época.

Quando o Mago começou eu tinha a intenção de fazer uma história digna de um Mundo das Trevas, mas a primeira sessão também foi meio desfocada. Então tive uma surpresa. No fim da sessão eles pediram para que eu segurasse mais o grupo e não brincasse mais do que eles, fazendo um jogo sério de verdade. Esse pedido fez meu céu brilhar, comecei a pesquisar varias coisas esquisitas e me aprofundei nas regras de Mago para dar uma boa experiência de terror e magia para eles.


A coisa que eu mais gostei em Mago: O Despertar (na verdade eu gostei de tudo, é um dos melhores RPG’s na minha opinião) foi o sistema de paradoxo, que é costurado com o sistema mágico, fazendo os jogadores pagarem caro pelo poder que usam. Não importava o quanto eles são poderosos ou se podem fazer tudo que imaginarem se existir uma força que suga tudo isso e transforma em algo aterrorizante o suficiente para que tenham medo de usar magia. Isso sim é pressão meus amigos e foi tiro e queda.

Na sessão seguinte, eles detonaram uma pessoa amaldiçoada que precisava de ajuda, levando com ela varias pistas sobre quem a tinha infectado, ignoraram todos os “calafrios sentido aranha de magos” e abusaram de magia além de falarem o nome verdadeiro de um componente do grupo a torto e a direita. As consequências geraram muitas outras histórias, confrontos com a polícia, destruíram a vida social de dois deles, os colocaram na lista negra das ordens e outras consequências. No fim dessa segunda sessão, em que eu usei as “simples” coisas que eles faziam na maioria dos jogos e simplesmente pensei o que de lógico aconteceria. Cheguei a conclusão de que jogadores problemáticos são o melhor tipo, pois quando se joga as cartas na mesa, eles fazem todo o jogo por você. Nessa história só há um antagonista real, além das atitudes dos próprios jogadores.

Eu percebi que eles estavam curtindo o novo estilo “newtoniano”, mas ainda estavam incomodados com a lei de causa e efeito, e isso me fez ter um devaneio psicodélico e começar a pensar sobre o que acontece na adolescência em relação ao desejo por liberdade, de conseguir o novo, de experimentar ser adulto e fazer o que bem entender que muitos jovens e até eu mesmo sinto, mas sem receber também o outro lado da moeda: a responsabilidade e a consciência.

Hoje e sempre vai existir a fase em que nós deixamos de brincar com nossos bonecos dos power rangers, esconde esconde (nem sei se as crianças atualmente ainda brincam disso), bonecas e casinha. É nessa fase de tédio e de falta de certeza que temos muitas experiências novas e definimos do que realmente gostamos de fazer, do tipo de pessoas que gostamos de andar e as coisas que odiamos. Tem muita gente que levanta a bandeira Nerd com orgulho (eu sou um deles) e montam comunidades de discussão sobre jogos, series, quadrinhos, RPG, blogs, animes, memes e qualquer atividade de cultura pop, mas é atingido com o preconceito, taxado por modelos americanos (o que graças a Deus já está acabando, acho até que ser Nerd está virando moda O.o), mas também há as pessoas que durante a adolescência não tiveram apoio da família e muito menos amigos verdadeiros em quem se apoiar e nessa coisa de experimentar coisas novas acabam usando drogas ilícitas, como cocaína, maconha e heroína.

Aquela sábia frase me vem à mente: “O meio não nos determina, apenas influencia”. Só esqueci de quem é, mas ouvi minha professora falando certa vez. A noção de liberdade, do prazer obtido facilmente ou com pouco dinheiro, é realmente perigoso nessa fase. Eu fico pensando comigo “se sexo é tão bom que ninguém nunca consegue nem imaginar não fazer de novo, imagina uma droga que deve satisfazer alguém bem rápido e talvez bem mais que sexo?” Eu tenho certeza de que quem entra nesse mundo normalmente não quer sair. Geralmente aqueles clichês de aparentar uma coisa que não é, e se fazer pros amigos existe mesmo. Mas uma coisa tipo “Ah, é bom e acho que não faz mal eu fazer de novo... e “eu posso parar quando quiser, sou forte mesmo, sou especial” rola muito mais do que eu pensava. A adolescência e a juventude são fases em que nós definimos nossa identidade. Todo mundo pode se tornar alguém brilhante, ou alguém destruído.

Grande parte de nossa pequena comunidade não tem esse problema, ou apenas posso dizer que eu quero acreditar nisso. Mas em vez de deixar essas pessoas serem levadas pelo abismo, é muito melhor unirmos nossos conhecimentos, espadas, poderes arcanos e afastar as trevas do nosso mundo através de nossa cultura ultra viciante e Nerd, onde podemos ser o que quisermos e aprender com os erros de pessoas que nós mesmos inventamos. Temos que prestar atenção nisso principalmente àqueles que são ou serão pais e mães, irmãos ou amigos. Uma coisa nova pode ser muito bem algo antigo, que simplesmente se é redescoberto. Precisamos redescobrir nossa própria história e compartilhar com aqueles que amamos, para assim criarmos mais histórias épicas, juntos. Eu só torço para que estejamos fazendo a coisa certa por aqueles que precisam. Pequenas ações podem mudar o mundo.

5 comentários:

Michael Wevanne "Mike" disse...

Falou e disse.

dklautau disse...

Brilhante. Simplesmente brilhante.

Parabéns pelas reflexões. Sensibilidade, inteligência, coragem e humor são componentes de um grupo de Role Playing.

Bravo! Texto bravíssimo!

Elves disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Elves disse...

Obrigado pelo comentário, tenho muita sorte em achar aqueles caras :D
Mas é uma pena que alguns deles vão morar fora do estado ;(

Jeferson Lucas Zanin disse...

Irei começar uma crônica, mas diferente de você tenho experiência somente de mestrar d20. Joguei algumas vezes Vampiro, mas nada se compara com MoD. Caralhooo, é informação demais, opções demais, enfim, ainda estou na dificuldade de não conhecer bem a cidade escolhida e to tentando amarrar a crônica e utilizar o SAS pra facilitar a minha vida. Não está sendo fácil, mas creio que será muito gratificante. Vlw.

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