20 de abril de 2011

Amizade, Role Playing, Bem

Uma das coisas que gosto de perder tempo é com amizades. Uma tradição de família, porque sempre vi meu pai, mãe e meus tios valorizando suas amizades de forma sincera e profunda. Dessa forma até hoje tento preservar até amigos de infância e cultivar novas amizades no ambiente profissional. No mundo atual, a famosa network, a rede de contatos, pode ser fortalecida através da amizade, que se torna um meio de sobrevivência.


Recentemente tive uma discussão com vários desdobramentos em uma lista de e-mail que participo. Seus componentes são amigos próximos e conhecidos distantes, mas todos com o objetivo comum de comentar sobre jogos, de computador e de Role Playing, além de livros sobre os temas, HQ´s e seriados. Alguns desses integrantes foram meus amigos há muito tempo, e alguns se tornaram muito importantes na época em que começava no Role Playing, há vinte anos.



Pois bem. Após algumas trocas de e-mails sobre temas polêmicos, como ciência, política e religião, percebi que algumas coisas mudam, e amizades que outrora eu julgava sólidas, são facilmente descartadas depois de algumas divergências de visões de mundo e posições de valores e filosóficas. Isso me entristeceu, e me intrigou.



É ponto comum dizer que o Role Playing gera amizade daquela de mesa, de tardes e noites de estupefatas situações inusitadas e inglórias com um grupo de pessoas heterogêneas com suas determinadas crises e traumas narrando situações cômicas e espalhafatosas, que se transformam em lendas lendárias a serem contadas em grandes encontros ou em mesas de bares, para serem rememoradas entre gargalhadas e orgulhosas descrições das situações heroicas ou trágicas que se viveu em conjunto.



Até aí é excelente. É como jogar bola, sinuca, videogame, aeromodelismo ou qualquer hobby ou esporte comum. Ou mesmo, em alguns níveis mais sofisticados, podemos comparar com um grupo de escritores ou de atores que praticam sua arte e mantém laços de amizade para troca de ideias e estudos de caso para elaborarem melhor sua atividade comum.



Porém, diante dessa situação de instabilidade na amizade, a ponto de chegar a ofensas sérias e talvez rompimentos definitivos por ofensas contra a honra, me perguntava qual seria a validade dessa amizade gerada pelo Role Playing.



Na filosofia, Aristóteles dizia que existem três tipos de amizade, que são classificadas segundo o objetivo da amizade. O interesse das pessoas de terem amigos, que para Aristóteles significava o interesse pela alma de outra pessoa, sua personalidade e seu espírito, o que diferenciava a amizade do eros, o amor que tinha interesse também pelo corpo, tinha três razões. O primeiro, o mais frágil e simples, é o da diversão. As pessoas se tornam amigas daquelas que dividem seus prazeres, como comer bem, beber, aproveitar arte ou praticar esporte. A amizade do passatempo, a qual o Role Playing é mais comumente associado.



A segunda forma de amizade era da utilidade. As pessoas são amigas das outras porque tem interesses de usar aquela pessoa, e por isso ficam puxando o saco, querendo proteção, mostrando serviço, porque sabem que aquelas pessoas podem ajuda-las quando for necessário. A famosa política da boa vizinhança, fazer o social, a negociação da diplomacia e do jogo da corte. Essa forma é mais estável, porque joga com significados mais profundos como riqueza, segurança e política.



A terceira forma, que Aristóteles considerava a mais elevada, era a amizade fundada no bem recíproco. Ser amigo é simplesmente querer a felicidade do outro, e não apenas me interessar que ele venha para o jogo ou o que ele pode ser útil para meus planos. É querer que o amigo chegasse na eudmonia, a felicidade, ou seja, uma vida plena. E da mesma forma essa busca do bem tem que ser recíproca. Essa amizade era a base do Estado, da sociedade, na qual uma nação, uma cidade, poderia se sustentar e equilibrar sua justiça.



As fraternidades, os clubes, as religiões, os partidos políticos, as Organizações não Governamentais são exemplos desse tipo de amizade. Amizade que se interessa pelo bem. É a amizade do adulto sábio, que busca não apenas a diversão conjunta ou a utilidade instrumental, mas busca o significado do Bem. E esse é o problema. Definir o que é o bem é um esforço milenar, que consolidou nosso estado, nossa civilização, nossas religiões e nossa justiça. Um tema difícil, complexo, cheio de paixões e furores, que muitos consideram perda de tempo e uma tarefa inútil, considerando o bem algo de foro privado e inquestionável, esquecendo que estupradores também mantem seu código de ética, e que viver em comunidade humana é pensar em crimes e limites, e enfim, pensar no que é o Bem.



O grupo da década de 30 e 40 do século XX na Inglaterra, os Inklings, formado por Tolkien, Lewis, Williams outros escritores, se reuniam para ler sagas épicas, medievais e antigas, e escrever suas próprias estórias. Se divertiam bastante com certeza, mas também organizavam mudanças curriculares e políticas nas universidades onde trabalhavam, e não era raro religiosos, padres, teólogos e pastores, participarem com assiduidade de suas reuniões. E muitas amizades foram forjadas durante décadas, que ecoam em influências nos trabalhos particulares dos integrantes do grupo.



E o nosso Role Playing? Vejo algumas ong´s que se formaram em torno dele, e também sociedades empresariais, lojas e editoras, que buscaram se consolidar num esforço comum para viver de Role Playing. Poucas conseguiram até hoje. Ainda se mantém essas sociedades como hobby, como clubes que participamos apenas para nos divertirmos e relaxar e rir com os amigos. O Role Playing é um jogo no fim das contas.



Algumas investigações acadêmicas, especialmente na área de educação e linguística, tem pensando no Role Playing como formador de valores e de método de aprendizagem de conteúdos diversos. É possível pensar nessa atividade como um meio para cultivar a amizade para além da diversão, abrangendo política, trabalho, filosofia e religião? O senso comum afirma, com muitos argumentos, que não.



A fragilidade da amizade é grande. Aristóteles dizia que era necessário hábito e tempo para formar uma amizade, e fazê-la evoluir da diversão para a investigação sobre o Bem. Talvez o mundo hoje não tenha nem hábito e nem tempo para outra coisa a não ser o individualismo e o egoísmo consumista. E são poucos os espaços onde é possível encontrar tempo e disposição de hábito para a convivência formadora de amizade para além do entretenimento.



É uma pena ver onde a amizade fracassa. Natural, sendo parte do amadurecimento. Nada pode ficar estagnado. Talvez o objetivo do Role Playing continue sendo interpretar um grupo de personagens em diversas histórias significativas, épicas, de horror ou trágicas, mas que no fim a amizade se mantenha apenas entre os personagens, que tem que tomar decisões morais que muitas vezes salvam o mundo. Quanto aos jogadores, nós sabemos que faz parte do amadurecimento entender que o mundo não pode ser salvo, e que na verdade é cada um por si e todos contra todos. Deixemos essas ilusões vãs para nosso imaginário, que nos permite um escape melhor que os outros passatempos simplesmente por uma questão pessoal.




Ainda bem que existe ainda a amizade por diversão. Talvez a única que reste de forma sincera no mundo. Para preservá-la, basta não discutirmos muito as questões mais significativas como o Bem, a verdade, a honra, a justiça, o sacrifício, o Mal e a morte. Deixemos que nossos personagens façam isso por nós.

6 comentários:

Fabi Dias disse...

As amizades não fracassam simplesmente por diferença de opiniões, ou por breves discussões, acirradas ou não, sérias ou simplesmente com palavas ao vento. Concordo com o dito popular que diz que a amizade é como o vinho, quanto mais velho, melhor...

Se não se conhece o pai, a mãe, o irmão, o(a) esposo(a) mesmo depois de muitos anos de convivência, quem dirá um amigo, mesmo aquele considerado da família.

No entanto, pode contar com a minha amizade sempre!

Bjs

RafaelKain disse...

Otimo post e me identifiquei muito.

Infelismente, muito amigos de jogo que conquistamos durante nossa vida de RPG, são e sempre serão "AMIGOS DE JOGO". Descobri isso após me afastar de alguns deles, e com o fim do jogo, logo veio o fim da amizade.

Obviamente, devido o contato que conseguimos manter com o avanço da tecnologia, em menos de 30 dias podemos conhecer mais sobre uma pessoas do que nossos pais conheceram de seus amigos, mesmo sendo amigos por 20 anos.

Da mesma maneira que conhecemos rápido, esquecemos rápido. Simples assim!

Amizade é consolidade atraves das inumeras dormidas na casa do amigo, comer a comida de domingo, torcar ideias, beber juntos, ficar bebados, sair juntos pra balada, coisas desse tipo.

O RPG pode sim, auxiliar no processo de interação social, mas nunca, fará todo o trabalho sozinho.

Nós, jogadores, muitas vezes esquecemos que isto é APENAS um jogos. Mesmo que em suma, ele ultrapasse esse ambito e caminhe em direção à arte, interpretação, filosofia e outros. No fim das contas, o que levamos do jogo é o jogo que se leva.

Michael Wevanne "Mwxs" disse...

Minhas partidas de RPG são as principais responsáveis pelos grandes amigos que tenho até hoje, mas considero o jogo mais como a oportunidade e não como o meio de se conseguir amizades.

Independente da situação, amizades surgem quando encontramos pessoas interessantes para a criação de vínculos, seja na partida de futebol ou nos dados rolando no RPG aos domingos, seja nas salas de aula ou no trabalho.

As pessoas se conhecem, rolam alguns dados de perícias sociais (hehe) e as coisas acontecem a partir daí.

O grupo responsável por este blog e os encontros na Saraiva foi criado a partir de um encontro marcado numa pizzaria entre (alguns) desconhecidos para conversar sobre o RPG em Belém. Desde este dia até hoje já saímos para bares, cinema, nerdeira de carnaval, almoço em família e olhem só... Jogamos RPG também, de quando em vez! Hehehe!

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Oi Diego,

O problema que você coloca é muito sério.
Eu acho que a questão é muito mais séria. O que se está em debate não é só a amizade, mas sinto que é um debate sobre virtude.
Numa sociedade que não valoriza a virtude, não tem espaço para a amizade. O que sobra é um movimento frustro de busca do meu prazer, e neste contexto se inscreve as amizades para diversão.

Hugo Marcelo

John Bogéa disse...

Esse post me lembrou do Big Model do Ron Edwards, que tem como primeiro ponto para o sucesso de um grupo de RPG justamente o nível de cortesia dentro do grupo.

desinteressantetita disse...

Meu irmão, infelizmente temos perdas, mas não acredito que são irreparáveis, mas que fiquei no coração as boas lembranças e se for pra que não siga mais algumas amizades é porque os valores se perderam. Cada um faz suas escolhas, e se não conseguimos respeitar as diferenças é melhor parar mesmo.
Eu te amo muito e acredito que teremos muito mais...lá no céu!

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