22 de março de 2011

Eliade, mitopoética, nostalgia

Eliade, mitopoética, nostalgia.


Mais citações sobre mitopoética, aventuras e narrar lendas. Continuando na linha filosófica, trago mais duas citações de Mircea Eliade. Uma sobre as relações entre contos e sagas (literatura) e os mitos (religião, sagrado).

“Para começar, ao nível das culturas ‘primitivas’, a distância que separa os mitos dos contos é menos nítida do que nas culturas em que existe um profundo abismo entre a classe dos ‘letrados’ e o ‘povo’ ( como foi o caso no antigo Oriente próximo, na Grécia, na Idade Média europeia). Os mitos são frequentemente misturados aos contos (e é quase sempre nesse estado que os etnólogos os apresentam) ou, então, aquilo que se reveste do prestígio de mito em uma tribo será apenas um simples conto na tribo vizinha. Mas, o que interessa ao etnólogo e ao historiador das religiões é o comportamento do homem em face do sagrado, o comportamento que se evidencia através de toda essa massa de textos orais. Ora, nem sempre é verdade que o conto indica uma dessacralização do mundo mítico; e em lugar de dessacralização, seria preferível dizer ‘degradação do sagrado’. Como Jan de Vries demonstrou muito bem, não há solução de continuidade entre os enredos dos mitos, das sagas e dos contos maravilhosos. Outrossim, se os Deuses não mais intervém sob seus próprios nomes nos mitos, seus perfis ainda podem ser discernidos nas figuras dos protetores, dos adversários e companheiros do herói. Eles estão camuflados – ou, se se prefere, ‘decaídos’ – mas continuam a cumprir sua função. (ELIADE, 2007, p 172-173).





O outro fala do tesouro mítico presente no cotidiano do homem moderno, como a literatura e os passatempos (Role Playing).



É esquecer que a vida do homem moderno está cheia de mitos semi-esquecidos, de hierofanias decadentes, de símbolos abandonados. A dessacralização incessante do homem moderno alterou o conteúdo da sua vida espiritual; ela não rompeu com as matrizes da sua imaginação: todo um refugo mitológico sobrevive nas zonas mal controladas.
Aliás, a parte mais ‘nobre’ da consciência do homem moderno é menos ‘espiritual’ do que geralmente somos tentados a crer. Uma rápida análise revelaria nessa ‘nobre’ e ‘alta’ esfera da consciência algumas reminiscências livrescas, muitos preconceitos de diversas ordens (religiosos, morais, sociais, estéticos etc.), algumas idéias prontas sobre o sentido da vida, a realidade última etc. Não tentaremos descobrir o que aconteceu, por exemplo, ao mito do Paraíso Perdido, à imagem do Homem perfeito, ao mistério da Mulher e do Amor etc. Tudo isso, entre muitas outras coisas, se encontra – quão secularizados, degradado, maquiado”... – no fluxo semiconsciente da mais material das existências: nos devaneios, nas melancolias, no jogo livre das imagens durante as ‘horas vazias’ da consciência (na rua, no metrô etc.), nas distrações e nos passatempos de todos os tipos. Entretanto, repetindo, esse tesouro mítico aí repousa ‘laicizado’ e ‘modernizado’. (ELIADE, 2002, p. 14).



Interessante não? O que acham do mito em nossas aventuras de Role Playing? Pertinência ou forçada?

2 comentários:

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Grande Diego,

Gostei muito dessa postagem.
Durante meus jogos de RPG, frequentemente me deparo com construções de crônicas que mais parecem uma narrativa mítica...

Um grande abraço,

Hugo Marcelo

Fabi Dias disse...

Acho pertinência!

Enquanto a Diana não puder jogar, você pode "contar" pra ela!

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