13 de fevereiro de 2011

Narrar o Novo Mundo Das Trevas


O ano era 2003 e havia recebido instruções de que o Mundo das trevas iria mudar, e não seria uma mudança simples e qualquer, mas um recomeço, um restart (e não estou falando de nada colorido!). De inicio veio o choque natural: “como assim acabar um cenário que deu certo por 13 anos?”, depois veio a negação: “Me recuso a cancelar a minha crônica”.

Era o ano de 2004. Eu li Vampire: The Requiem (VtR) e World Of Darkness (WoD) logo quando foram lançados. Ai veio a resposta final: “Jamais vou deixar de gostar do antigo cenário, mas para qualquer pessoa comprometida com a narração, esse novo sistema não é somente uma benção mas um sinal de que alguém – Justin Achili, Bill Bridges ou Ken Cliffe – olha por nós meros mortais”. Ouso a dizer que narrar o atual cenário não é um desafio como o antigo o era, mas uma prova de que narração boa pode ser feita com qualidade.

É claro que existem imperfeições, mas se compararmos com o antigo sistema, elas desaparecem. Para aqueles que acham que o novo WoD tirou a autoridade e o poder do narrador, deixando-o como um mero árbitro, digo-lhes: estão completamente CERTOS!

Tanto é que até o nome da linha foi mudada e não foi por motivos estéticos, sai o Storytaller onde o foco era o narrador (em uma tradução livre significa contador de histórias) e entra o Storytalling onde o foco é a história e seus participantes (em uma tradução livre significa contando história). Esse foi mais um erro corrigido ao se desenvolver o sistema, quando se percebeu que o narrador, através de seus NPCs não é o foco, antes são partes integrantes de um todo e que devem divertir a todos.

Há os que reclamam do excesso de regras o que de acordo com eles travariam muito o jogo. Para esses eu digo, essas regras foram implementadas a pedido dos próprios jogadores e narradores do mundo todo, quando em 2000 a White Wolf, já pensando em refazer o Mundo das Trevas, resolveu criar um canal direto entre jogadores, e ela onde se podia opinar sobre quais regras eram válidas e quais deveriam ser criadas para corrigir determinados equívocos. Chegou-se a especular até mesmo que a White Wolf iria criar o Vampire: The Masquerade 4ª edição. Mas não! O que veio foi uma bomba no melhor sentido. Claro! Resolveram reformular e tentar evitar 13 anos de erros sistemáticos e testados a exaustão.

A idéia de um sistema base para todas as linhas não somente é mais justa como visa facilitar a vida do narrador quando ocorrer o inevitável: o crossover.

Antes, cabia ao narrador adaptar as regras, já que cada linha tinha as suas, o que tornava tudo mais injusto e ocorriam disparidades impronunciáveis. Hoje não! Não só existe uma unificação de regras como o crossover é incentivado em destaque em cada livro da linha básica onde se lê: Conflitos Sobrenaturais.

A meu ver, o problema não está no WoD, mas sim na nostalgia, para aqueles que narram, de coisas como Regra de Ouro, o que poderia colocar narradores em quadros opostos, de um déspota até um criador fantástico que sabe adaptar as regras a conveniência de todos na mesa. O antigo cenário vai deixar eternamente saudades e é para deixar, pois se deve muito a ele. O RPG deve em parte sua vida a ele, mas renegar o que é “novo” sem ter experimentado é como continuar usando walkman num mundo de ipods (nada contra quem gosta).

Narrar o WoD requer maturidade, enquanto jogador e enquanto pessoa, uma vez que os próprios temas abordados estão mais maduros. Antes, podia-se jogar vampire com 10 anos (não era recomendado é claro, mas podia-se). Hoje, com a atual temática que envolve elementos de um terror psicológico que beira o doentio, uma criança de 10 anos não vai conseguir jogar, atingir tudo aquilo que o jogo propõe. Enfim, a maioridade atingiu o RPG \o/.

Narrar o WoD não é para qualquer um, mas aqueles que se atrevem a entrar nas catacumbas do Mundo das Trevas e vislumbrar suas sombras estão demonstrando mais do que coragem, estão demonstrando maturidade. Eis a necessidade de formamos novos narradores. Jogar é para todos, formar novas gerações de narradores é para poucos. Quem se hablita?

Leonardo Teixeira
Em homenagem póstuma A Casa e Clã Tremere.

4 comentários:

John Bogéa disse...

Ótimo post. Concordo plenamente com tudo.

Dr. Nosferatu disse...

O novo quase nunca é bem vindo, mas tenho certeza que se o público se adaptar, uma nova linhagem de narradores e jogadores vão surgir.
O novo Wod está muito bem organizado e as regras ficaram exelentes. Estava lendo Changeling the Lost e fiquei surpreso com a riqueza de detelhes e claro a arte excepcional.

espião disse...

Eu era particularemente contrário ao novo mundo das trevas. Até que tive acesso aos livros.
Não tentemos comnparar o velho com o novo Mundo das Trevas. O novo é infinitamente melhor em regras. Mas o antigo, em matéria de romance e descrição de cenário é incomparável.
Portanto, creio eu, que comparar os dois cenários é aquela velha pergunta sem sentido: qual seleção foi melhor, a de 70 ou a de 94?
abraços

Fabricio Caxias disse...

Até a FIFA e os produtores de Games de Futebol concordam que foi a de 70, não é uma pergunta sem sentido. Outro dia eu posto o FIFA que tem todas as seleções brasileiras e a de 70 é sem duvida considerada unanimidade.

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