17 de fevereiro de 2011

Mircea Eliade, conto maravilhoso, iniciação imaginária.

Mircea Eliade, conto maravilhoso, iniciação imaginária.



Entre citações e teorias, descobri esse texto de Mircea Eliade, um historiador romeno, filósofo e teólogo. Cara importante para estudiosos da religião, principalmente de uma vertente chamada fenomenologia.

O livro chama Mito e Realidade, de 1963, onde ele recupera o sentido da palavra mito como narrativa sagrada de cosmogonia ou de origem de uma realidade. 1963 foi o ano da morte de Lewis e quando Tolkien já se consagrava como autor do famoso O Senhor dos Anéis. Escrevi o artigo sobre Beowulf entre Tolkien e Borges na revista eletrônica www.ciberteologia.com.br


Fiquei pensando no que o que ele chama de iniciação imaginária, de desenvolvimento espiritual, tem no Role Playing. O que acham?




Embora, no ocidente, o conto maravilhoso se tenha convertido há muito tempo em literatura de diversão (para as crianças e os camponeses) ou de evasão (para os habitantes das cidades), ele ainda apresenta a estrutura de uma aventura infinitamente séria e responsável, pois se reduz, em suma, a um enredo iniciatório: nele reencontramos sempre as provas iniciatórias (lutas contra o monstro, obstáculos aparentemente insuperáveis, enigmas a serem solucionados, tarefas impossíveis, etc.), a descida ao inferno ou a ascensão ao Céu (ou – o que vem a dar no mesmo – a morte e a ressurreição) e o casamento com a Princesa. É verdade que o conto sempre se conclui com um happy end. Mas seu conteúdo propriamente dito refere-se a uma realidade terrivelmente séria: a iniciação, ou seja, a passagem, através de uma morte e ressurreição simbólicas, da ignorância e da imaturidade para a idade espiritual do adulto. A dificuldade está em determinar quando foi que o conto iniciou sua carreira de simples história maravilhosa, decantado de toda responsabilidade iniciatória. Não se exclui, ao menos para certas culturas, que isso se tenha produzido no momento em que a ideologia e os ritos tradicionais de iniciação estavam em vias de cair em desuso e em que se podia contar impunemente aquilo que outrora exigia o maior segredo. Não é de todo certo, entretanto, que esse processo tenha sido geral. Em grande número de culturas primitivas, nas quais os ritos de iniciação permanecem vivos, as histórias de estrutura iniciatória são igualmente contadas, e o vem sendo há longo tempo.

Poder-se-ia quase dizer que o conto repete, em outro plano e através de outros meios, o enredo iniciatório exemplar. O conto reata e prolonga a iniciação ao nível do imaginário. Se ele representa um divertimento ou uma evasão, é apenas para a consciência banalizada e, particularmente, para a consciência do homem moderno; na psique profunda, os enredos iniciatórios conservam sua seriedade e continuam a transmitir sua mensagem, a produzir mutações. Sem se dar conta e acreditando estar se divertindo ou se evadindo, o homem das sociedades modernas ainda se beneficia dessa iniciação imaginária proporcionada pelos contos. Caberia então indagar se o conto maravilhoso não se converteu muito cedo em um duplo fácil do mito e do rito iniciatório, se ele não teve o papel de re-atualizar as provas iniciatórias ao nível do imaginário e do onírico. Esse ponto de vista surpreenderá somente àqueles que consideram a iniciação um comportamento exclusivo do homem das sociedades tradicionais. Começamos hoje a compreender que o que se denomina iniciação coexiste com a condição humana, que toda a existência é composta de uma série ininterrupta de provas, mortes e ressurreições, sejam quais forem os termos de que se serve a linguagem moderna para traduzir essas experiências (originalmente religiosas).



3 comentários:

Fernando Gregianin Testa disse...

É como dizes. O rito de passagem, mesmo que operado no imaginário como nos contos, não deixa de produzir efeitos no sujeito. Sei de alguém que após ler O Senhor dos Anéis fez uma tatuagem no próprio corpo. É de se perguntar: porque os contos produzem esses efeitos? A resposta deve ser porque eles falam de algo profundamente real no humano. Por isso sua emulação do rito no conto produz uma reverberação profunda em quem lê.

Maybe another Mr. Nobody disse...

Mircea Eliade \o/

O "sagrado e o profano" também poderia contribuir com uma ambientação medieval! Talvez o "Tratado de História das Religiões" também possa servir um mestre de Changeling bem Hard Core, como eu!

Se houvesse uma discussão sobre "Teoria do RPG", autores que discutem os mitos, mesmo os mais pops como Mircea Eliade e Joseph Campbell, certamente seriam relevantes.

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Grande Diego,

Gostei muito desta postagem. Depois eu vou ler esse livro.
Fico pensando nas aventuras do meu personagem, o Abdul, e como ele está se transformando em um homem ao encarar seus demônios.

Muito legal,

Hugo Marcelo

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