25 de novembro de 2010

Porque o Tropa de Elite 1 é melhor que o Tropa de Elite 2.

Porque o Tropa de Elite 1 é melhor que o Tropa de Elite 2.

Há tempos que não escrevo neste blog, devido a exigências de provas, condução de tese de doutorado e artigos científicos a publicar e apresentar em congressos e seminários. Confesso que nem todos os artigos são prazerosos de escrever, que muitas vezes me canso da convivência de colegas de trabalho e alunos. Isso tudo para ter que responder inúmeras vezes: Você trabalha ou só dá aula?


Enfim, retomando minha discussões sobre a vida do Role-Playing, filosofia e arte, venho novamente colocar minha humilde opinião sobre um dos maiores sucessos de bilheteria do cinema nacional: Tropa de Elite 2.


Eu gostei do filme. É uma porrada bem dada na idéia de que a democracia é boazinha, um sonho lindo de morrer, e vale a pena morrer pela democracia, e que todos nós temos que nos curvar diante da terrível ameaça da negação democrática. Mostra que tudo não passa de jogo de interesse, e justamente por isso que tanto Platão quanto Aristóteles consideravam a democracia, mesmo aquela sustentada por escravos, a pior forma de governo. Para a democracia, o justo e o certo dependem do número de comparsas e de interesses mesquinhos que um grupo consegue arregimentar.


Claro que estou com Churchill: A democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as outras que a história já experimentou. Um mal necessário. Mas nem por isso me venham com a conversa ingênua de felicidade democrática como o Sumo Bem e a justiça plena.


É isso que Tropa 2 mostra. Um sistema tão corrupto que nem o próprio Rambo brasileiro, o Dirty Harry tupiniquim, o Charles Bronson canarinho, o nosso Capitão Nascimento conseguiu arrumar. É, o capitão Nascimento viu que o sistema era brabo mesmo, e os inimigos mais terríveis não eram os traficantes, mas sim a própria democracia, que não está nem aí com a justiça e o bem, mas somente com a mídia, as eleições, e um bom cargo público em assembléias legislativas e no congresso.


Outro dia, em uma aula de moral na faculdade de engenharia, trabalhei com uma análise dos filmes. Peguei o livro “Cristianismo Puro e Simple” do C.S. Lewis, amigo do Tolkien e escritor de Crônicas de Nárnia. Nesse livro, Lewis faz uma pequena apresentação do cristianismo em termos filosóficos e um início de teologia. O fato é que num capítulo: As três partes da moral, Lewis mostra que uma verdadeira investigação moral deve seguir três passos: o social, o individual e o destino humano.


A análise que fiz mostrava como o Tropa 1, apesar de ser violento, fascista e autoritário como um bom filme de guerra e de policial deve ser, também carregava uma virtude que garantiu seu sucesso: a coerência entre os três pontos da moral. O capitão nascimento sabia que o que ele fazia não era suficiente para a sociedade resolver o problema da violência, porém sabia que tinha que se esforçar o máximo para manter as coisas piores fora do bope, leia-se a corrupção e o comodismo.



Socialmente, o bope de fato se esforçava para realizar sua tarefa social, de inclusive dar porrada em boyzinho que consumia maconha, alimentando os traficantes, financiando armas, ao mesmo tempo que arrotavam consciência social.

Individualmente, o capitão Nascimento mantinha sua tenacidade em viver a justiça, sendo um policial no Rio de Janeiro, que mesmo sendo peão, tentava manter sua honra e sanidade mental. Vivia uma vida de família, e no final ele escolhe a mulher e o filho, treinando um substituto para seu cargo. Na vida real, Rodrigo Pimentel, que inspirou o personagem, fez isso. É justamente por isso que penso que o Tropa 1 é mais humano que o Tropa 2, porque é baseado numa pessoa real.



Quanto ao destino, o Tropa 1 mantinha no horizonte a idéia de justiça. O ser humano pode ser justo, pode fazer o bem, pode agir corretamente. O bope, apesar de não ser o exemplo moral mais interessante, mantinha um dado fundamental: se esforçava para fazer uma justiça que ia além da corrupção policial, a fragilidade do sistema judiciário e mesmo a hipocrisia e omissão da Igreja (põe na conta do Papa!).

Fiquei feliz com o Tropa 1 porque ele saiu do lugar comum da vitimização dos pobres. Claro que vivemos num sistema social injusto, e que historicamente estamos em débito com grande parte da população, mas existe o certo e o errado. E um pobre traficante que mata está errado e deve ser combatido. E morto se necessário.



Penso que minha pior decepção com o Tropa 2 seja essa. Não existe coerência no filme. Não existe uma integração entre essas três partes da moral que Lewis cita. Existe simplesmente uma descrição do sistema democrático em sua essência: hipócrita, frágil e interesseiro. Nada de novo. Qualquer aluno de primeiro ano de faculdade de ciências humanas e sociais descobre isso. Filme de universitário empolgado com a visão sistêmica: “não há nada a fazer, então vamos ao boteco beber cerveja e fumar maconha”. Como não adianta ser moral, buscar a justiça, então exploda-se tudo, porque a busca de verdade, inclusive da justiça, é apenas uma falácia para exercer interesses particulares. Logo, o que importa é entrar na guerra hipócrita de interesses e buscar o seu lado. Como disse, nada de novo. Qualquer documentário de ciências humanas mostra isso logo no primeiro ano de faculdade.



O filme é bom, mas penso que poderia aprofundar a coerência que percebi no primeiro filme. Falar mais da ficha limpa, de alguns políticos que lutam seriamente para realizar seu projeto. Sim, existem políticos assim, apesar do maconheiro e bêbado universitário adorar arrotar que não existe para justificar sua própria decadência.


O herói do Tropa 2 é o cara do direitos humanos. Que é burro ou hipócrita, porque luta na política contra corruptos, mas permite que a funcionária fume maconha. Ou seja, é conivente e alimenta o tráfico com sua própria funcionária, que compra corruptos contra os quais diz lutar. É burro, ou hipócrita, talvez porque queira como o deus no evangelho segundo Jesus Cristo, de Saramago, afirmar a existência de um inimigo, de um diabo, para poder crescer midiaticamente e politicamente junto à população. O cara dos direitos humanos é tão hipócrita quanto o falso moralista dos programas sensacionalistas da televisão.



O final do Tropa 2 me decepcionou. Quem assiste e não estuda as ciências humanas adora. Quem é relativista hipócrita adora, porque finalmente pode viver seu niilismo adolescente em paz, com a máscara de ser gente grande: “vamos ser maduros, a justiça enquanto universal verdadeiro não existe, existem apenas versões, logo não adianta se indignar com injustiças, mas sim aceitá-las e viver com elas”. Não precisava fazer filme para afirmar essa mensagem, basta ler qualquer professor de ensino médio de história, geografia, filosofia, jornalistas e afins.

Finalmente, como o Tropa 2 é um roteiro inventado, não inspirado numa história real, o roteirista caiu no lugar comum. Como disse, é claro que o sistema democrático é uma piada, uma falácia. E é claro que não temos outra alternativa. A única garantia é a busca de coerência moral, de projetos como o ficha limpa, que possam estimular a seriedade na vida pública. Temos que pensar na ação individual, pensar nos nossos atos, no destino da vida humana, pessoal e pública.



Tropa 2 é um bom filme. Vi muitos desses na faculdade nos primeiros anos. É óbvio que o capitão Nascimento teria problemas diferentes quando deixasse de ser um peão da polícia. Política é bem mais difícil e complexo que guerra. Mas essa constatação não muda os ideais pelos quais vale a pena lutar tanto na guerra quanto na política. Tropa 2 não me acrescentou nada. Tomara que o Tropa 3 traga de volta a coerência do Tropa 1.

12 comentários:

Hugo Marcelo Barbosa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Hugo Marcelo Barbosa disse...

Grande Diego,

Gostei muito deste seu poster.

Eu particularmente assisti 11 vezes o Tropa 1, mas não pretendo assistir uma segunda vez o Tropa 2, que foi um show de hipocrisia e de um relativismo moral nauseante!

E o pior, o rambo brasileiro virou viado, deixou um cara dos "direitos humanos" catar a mulher dele... DEPLORÁVEL!!!

Um grande abraço,

Hugo Marcelo

Ricardo Foureaux disse...

Olha, uma coisa vocês não entendem. O Tropa 1 passou uma mensagem péssima para a sociedade, de que Polícia boa é aquela que é incorruptível, mas age baseado única e exclusivamente baseada na violação de direitos humanos. A população, depois do 1, queria uma polícia formada por Capitães Nascimentos enfiando vassouras sabe-se lá onde, e matando a esmo. Só que essa mesma sociedade hipócrita é quem vai as ruas protestar quando um policial, influenciado pela onda "capitão Nascimento", mata alguém honesto de forma equivocada. Polícia violenta só é boa quando ela não mata sua mãe, seu pai, seu irmão, sua esposa, seu filho. Todo mundo tem que ser tratado como inocente, e quem julga é o poder judiciário, não um policial armado de fuzil.

Minduin disse...

Primeira coisa. Quantas pessoas hoje em dia fazem faculdade de Ciências sociais? Quantas pessoas têm o privilégio de estarem sentados te ouvindo falar dentro de uma sala de aula?

O seu ponto de vista me pareceu muito arrogante e mesquinho, me da a impressão que só vocês escolados que fazem cursos com nomes estranhos que pouca gente sabe pra que servem tem o direito da opinião.

Com qual argumento você coloca que o filme instiga o comodismo e a passividade?

Ver filmes de baixo orçamento na faculdade, é uma coisa, quantos tem acesso a isso durante a vida?

Acredito e muito na viabilidade desse filme, pois ele traz a tona a nossa fragilidade e passividade e nos chama de idiotas e mesmo que não seja na maioria, como vi muitos por aí, um interesse maior pelo que está em torno de nós.

O filme machuca o nosso ego, nos tira do ponto de inércia e desperta enfim a reflexão.

Reflexão essa quase extinta na sociedade em que vivemos.

Produto de um sistema educacional fraco, que não explora o debate e a formação de opinião nas escolas.

Discordo de você pois vi pessoas de bem, mas alienadas por causa de uma vida puxada e regrada pela concorrência e pela rotina dura a qual somos colocados, esquecem que também são cidadãos e que seu poder e sua opinião tem algum valor.

Pra finalizar o filme me mostra que não devemos nos conformar e muito menos sonhar com um mundo sem corrupção. O filme nos mostra que a passividade a qual estamos sujeitos é o que gera essa situação calamitosa.

A corrupção é um fato histórico quase inerente do ser humano, mas a forma com a qual lidamos com isso é uma opção nossa.

Espero ter sido o mais construtivo possível.
Pois esse é o ponto de vista de alguém normal como muitas outras.

Só mais um pedido que eu tenho é que vocês da sociedade acadêmica não esqueçam que pessoas como nós não temos acesso ao mesmo conteúdo que vocês. E se vocês não nos transmitem esse conteúdo alguém terá de faze-lo.

Nuwanda disse...

Não estou dizendo que a sua comparação entre os filmes foi ruim, mas atente a isso "Não existe uma integração entre essas três partes da moral que Lewis cita."
Isso não é um argumento muito sólido, não faz muito sentido dizer que um dos motivos para o filme 2 ser pior é não bater com a ideologia de um escritor.

Paulo_Segundo disse...

Sem entrar no mérito do artigo, faço logo uma indagação: "o que isso tem a ver com o RPG, que é o mote deste blog?"

Entrando no mérito, a análise foi relativamente boa, tirando a arrogância acadêmica...

As faculdades de humanas são as que, indiscutívelmente, tem uma maioria esmagadora de playboyzinhos metidos a intelectuais de esquerda, que adoram puxar um fumo nas horas vagas...

Que demonizam a polícia e a acusam de facista, transformando o marginal num mártir, numa visão hipócrita e romântica de que ele é o anti-herói...

Que finge ser Pró Direitos Humanos, mas não dá a mínima para o sofrimento das vítimas dos marginais e suas famílias, e vive com medo da violência dentro de suas gaiolas douradas...

Que é quem mais emperra as mudanças legais que poderiam trazer um pouco mais de segurança para as pessoas que querem uma vida justa, que são trabalhadores, sejam ricos ou pobres...

Entre tantas outras coisas que eu poderia escrever aqui.

Desça do seu pedestal pra fazer a análise, meu caro.

Ramón disse...

Apenas um comentário sobre o último parágrafo, aonde diz que "Política é bem mais difícil é complexo que guerra":
Segundo Don Altobello no Poderoso Chefão 3, "Política é saber quando puxar o gatilho".

Fabi Dias disse...

Não estudei ciências humanas, nunca fumei maconha e talvez seja uma relativista hipócrita (se bem que não sei direito o que você quis dizer com isso), mas adorei o Tropa 2.

Não acho que o personagem do capitão Nascimento tenha sido um babaca, banana e perdedor; ao contrário, se manteve firme até o fim e fez o que estava ao ao seu alcance: denunciar! Quantos não se calam, não se corrompem?

Achei que o Tropa 2 foi sim, diferente do Tropa 1: menos porrada - coisa de menino; e mais tensão, mais inteligência. Ao contrário do Tropa 1 que quase manchou o telespectador de sangue, gostei mais do 2, e assistiria muitas outras vezes.

Nelson disse...

Fale irmão!
Cara, meio que me preocupa esse texto! Pra começar que se for pelo obvio, Tropa de Elite 1 também cai no ponto comum. TE2 assim como TE1, também é um roteiro inventado, a diferença esta nos problemas retratados. Retrata pro exemplo as milícias, mais especificamente a que domina a favela “Rio das Pedras”, retratada no filme com o nome de “Rio das Rochas”. Claro, apenas um exemplo do problema milícia, alias, do grande problema milícia.
Escancara para quem finge não ver, a realidade da maioria dos políticos do pais (se não do mundo, e na minha humilde opinião, não da maioria, mas de todos os políticos. Tem político bom? É eim?!??!) que realmente só pensa em seus interesses pessoais, um bom exemplo sai daqui mesmo, a Governadora Ana Julia aliada ao se não o maior, um dos seus maiores inimigos políticos, Almir Gabriel (o mimado).
Uma realidade do filme? A maior confusão entre ficção e realidade fica por conta do personagem “Diogo Fraga”, inspirado no Deputado estadual Marcelo Freixo, que a propósito no sábado (27.11) estava negociando a rendição dos traficantes no morro do alemão. No filme ele de fato sai perdendo na cena da secretaria. Mas lembre, é só mais um exemplo já visto no TE1, quem fuma maconha e alimenta sim o tráfico. Assim como quem compra filmes ou outros produtos “falsificados”, “paralelos” e afins.
Como já disseram alguns, o filme balança sim, principalmente quem não faz parte da elite intelectual do pais. Lembre, a realidade não é tão clara assim. Minimamente o filme atingiu um número bem maior de pessoas, principalmente se comparado a filmes vistos ...”na faculdade nos primeiros anos”...

Daniel Coimbra disse...

Não concordo com nada dito aqui, nem concordo, muito pelo contrário.
Data venia, afirmo:

"Tropa de Elite
Osso duro de roer
Pega um, pega geral
Também vai pegar você!"

: D

Nelson disse...

agora sou eu que passo a nao entender o que falas!

Hugo Marcelo Barbosa disse...

"Quem poupa o lobo, sacrifica a ovelha..."

Postar um comentário