19 de setembro de 2010

Heróis de verdade


Jogar RPG é muito divertido e é algo que deve ter mudado a vida de muita gente, a minha mudou bastante: fiz muitas amizades, várias delas durando até hoje, arrumei muitas namoradas (todas agora no passado), viajei, me envolvi com projetos audaciosos, li e escrevi um bocado, tudo isso por conta do jogo. Não que eu não tivesse feito tudo isso se por acaso desconhecesse o RPG, mas com certeza seria bem diferente.

Por que estou falando tudo isso de mim? Porque minha mensagem dessa semana é bem particular e fruto de uma experiência pessoal, que pode agradar ou não aos leitores, mas o fato é: vivemos parte da nossa vida em mundos imaginários, brincando de ser heróis, ajudando os mais fracos e protegendo os desassistidos. Buscamos vencer desafios, superar metas, crescer e evoluir, ascender, ganhar reputação, renome e experiência. Isso tudo é muito bom, mas há algo infinitamente superior: fazer isso na vida real!

O evento ocorrido no fim de semana passado em várias cidades do país, o Dia D RPG, foi extremamente cansativo para todos os seus organizadores, mobilizou muita gente e arrecadou bastante alimento para doação: mais de meia tonelada em todo o país e foi justamente na entrega desse alimento que ocorreu, no meu ponto de vista, a melhor atividade.
Conhecer o trabalho de formiguinha de pessoas bem intencionadas, iluminadas, que olham mais para o próximo do que para si mesmo, verdadeiros heróis do mundo real, esse sim é o grande trunfo do evento. Existe a diversão, existe o fator lúdico da coisa: jogar dados e torcer por um número bom. Existe a fantasia, existe a socialização, mas acima de tudo isso: caridade.

A caridade, no meu ponto de vista, é o que pode transformar o mundo, superar todos os obstáculos e vencer o jogo.Faço questão, anualmente, que toda a galera daqui de Macapá que ajudou a organizar o evento participe da entrega, é nesse momento que nos deslocamos para longe do nosso status quo, de nosso local seguro e nos deparamos com a realidade de crianças pobres, gente faminta de comida e de oportunidade, é nesse momento que nos deparamos com as desigualdades sociais gritantes de nosso país. Nesse momento, percebo que a miniatura de setenta reais que eu compro hoje, ou o livro de cinqüenta, valem, em dinheiro, o mesmo que o sorriso de muitos menores ou o alento de um pai. Não que isso seja culpa nossa, não, não estamos falando de culpa, estamos falando de ajudar, de fazer caridade.

Vamos continuar nos divertindo, rolando dados e contando estórias, por que não? E que tal contarmos também as estórias dos heróis do mundo real? Que tal fazer parte desse time?

Daniel Coimbra, Dia D RPG Macapá.

11 comentários:

Rodrigo "Ragabash" disse...

Gostei do recado. Excelente reflexão.

Gilson disse...

"A Força forte em você é, jedi."

Gilsoyoda

John Bogéa disse...

Ótimo post. Fazia tempos que não lia ideias assim, fiquei até emocionado. :)

o Clérigo disse...

É verdade. Viver no mundo imaginário é legal, mas temos uma vida de verdade onde podemos nos tornar heróis de alguém. Para isso não mataremos dragões ou orcs... basta que estendamos a mão para erguer aqueles que passam por dificuldades e não tem os mesmos privilégios que nós. Valeu pelo post!

Diego Genu Klautau disse...

Grande Dan.
A vida é essa mesmo.
Temos nossos atropelos e nossas quedas, mas o imporante é seguir em frente. Muitas vezes o que nos impulsiona são as histórias e estórias que vivemos, os significados profundos que compartilhamos com amigos e familiares. O desdobamento disos é a própria caridade. Cada jogo de rpg, se é arte e celebração da amizade, pode ser um veículo da caridade. Parabéns pela experiência. Muito temos que conversar, irmão Filho de Gaia. Uma honra tê-lo como frater.

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Caro Daniel,

Adorei sua postagem...

Hugo Marcelo

RPGeo disse...

"(...)nos deparamos com as desigualdades sociais gritantes de nosso país"
Eu diria "do mundo".

Vivemos em um mundo socialmente injusto, e não é por acaso, esse mundo foi moldado, ele não chegou onde está "sem querer", foi tudo pensado, mas ao mesmo tempo disfarçado pra parecer que não foi.

Todos os sistemas político-econômicos foram socialmente injustos?

Talvez, mas o que nos encontramos é o mais cruel, pois ele não é explícito,é implícito.

Feudalismo, Escravagismo... Capitalismo.

A diferença é que agora a prisão é invisível, como tentar escapar de uma prisão que não se pode ver ou tocar?

Como se livrar de inimigos que nem sequer sabemos identificar quem são?

A grande questão é: Caridade basta?

Vivemos em um mundo de consumo induzido, nosso modo de vida urbano capitalista está recheado de futilidades,as quais nos agarramos com unhas e dentes... enquanto do outro lado estão aqueles que não tem o básico. E dizemos "A culpa é deles"
Será? Temos igualdade de oportunidades? de fato?

Você seria capaz de abrir mão do seu Computador?Do seu jogo de RPG, para o mundo ser mais justo, para que todos possam ter uma vida digna, se para isso fosse necessário tirar as necessidades não básicas dos que tem para atender as necessidades básicas dos que não a tem?

Você aceitaria ter de plantar e colher o que se isso siginifcasse igualdade social?

Vocês seriam capaz de se livrar dos "vícios" desse mundo para ter um mundo melhor?

Não basta dividir meu excedente com o próximo, é necessário agir para que todos tenham uma VIDA digna com justiça social, qualidade de vida e autonomia.

Eu sou capaz, e você?

- Nando Alves

Diego Genu Klautau disse...

Esperar que o Estado seja capaz de forçar as pessoas a realizar a "justiça social" é um nome para a imbecilidade violenta e bárbara.
Forçar as pessoas a ser caridosas é um contrassenso, uma falha lógica, porque a caridade supõe a liberdade. Querer forçar as pessoas a serem iguais e como impor a liberdade. Uma coisa estúpida.
A caridade pode começar no momento em que meu pai, minha mãe, meus irmãos, meus filhos precisam de mim. O que vier depois e de livre vontade de cada um, que é necessário e existe muita gente fazendo (posso indicar ong´s, igrejas e associações diversas empenhadas em melhorar o mundo. Recentemente li um livro do Muhhamad Yunnus, vencedor do nobel da paz em 2006 e fundador do banco grammen, de microcrédito, que livrou muitos pobres em Bangladesh). De outra forma é terrorismo demoníaco.

Daniel Coimbra disse...

Longe de querer mudar o mundo (meu círculo de ação é ainda bem reduzido), penso que nas pequenas ações e nos pequenos gestos - até mesmo na auto-evolução, já se opera algo.
Sendo prático e claro: em um dos abrigos que visitamos para entregar alimentos, havia uma sala com computadores, alguns quebrados, para a molecada utilizar. Sendo eu técnico em informática, me senti capaz de tirar uma tarde por semana e ir ao local dar manutenção, instalar programas, enfim, todos podemos ajudar de alguma forma, todos somos capazes.
E voltando a coisa para o lado lúdico, porque não pegar um sábado e levar a moçada pra lá com jogos e mesmo uma estorinha?
Fará diferença na vida dos desassistidos? Acredito que sim.
: )

Gilson disse...

Sim, com certeza. Tem um filósofo que fala isso, parece que o Foucault, que as pequenas batalhas são batalhas e todos podemos lutá-las.

Gilson

Daniel Coimbra disse...

E falando em heróis da vida real, vejam isto (surreal):
http://www.reallifesuperheroes.com/
(peguei do buzz do mestre giandanton)

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