7 de abril de 2010

Pedofilia, religião e Role Playing.



Tenho acompanhado a mídia falando de padres pedófilos. Me correspondi com um grande amigo do Role Playing sobre isso. Gostei de como ficou uma determinada resposta, e transcrevo minha parte.

Grande Mestre,

Fico muito contente receber notícias suas. Fiquei sabendo que estavas doente, e isso me preocupou. Folgo em saber que estás melhor.

Agradeço suas considerações, e mais ainda o trabalho de ter enviado.

Acredito que Deus existe, principalmente através das virtudes que ele concede a humanidade. A amizade, virtude fundadora do Estado segundo Aristóteles, foi um caminho para Deus que encontrei em nossos jogos de rpg. Nesses jogos debatíamos sobre coragem, coerência, honra e amor. Todas virtudes que podem ser consideradas atributos de Deus. Todo ateu que busca esses valores de boa vontade estão próximos de Deus, quer eles saibam, e mesmo queiram, ou não.

Por isso a pedofilia me enoja. A destruição desse senso do elevado, do sublime, do vislumbre do maravilhoso que pode acontecer na convivência humana, é algo pavoroso. Padres assim nos fazem quase sentir nostalgia da inquisição. Quase.

Não tenho nada contra homossexuais. Tenho contra a atitude cínica, doente e cruel de dizer que o impulso religioso é homossexualismo recalcado e reprimido. Em alguns casos pode até ser, mas esses homossexuais são os primeiros a dividir as coisas. Uma coisa é o impulso que eu sinto, outra coisa é a virtude que eu busco. E isso é digno e válido como caminho da felicidade, que é outro atributo de Deus.

A coisa é tão grave que até o C.S. Lewis teve que escrever, em seu capítulo sobre amizade do livro Os quatro amores, que a relação que ele tinha com os inklings (escritores britânicos entre eles o tolkien) não tinha caráter homossexual. Era a amizade, desarmada e sincera, daquelas de beijar os amigos de forma afetuosa e limpa. Comer, beber e contar estórias. Se emocionar e partilhar confidências. Como os hobbits.

O que mais me dói nesses casos de pedofilia e de como a mídia trata é a insistência em trazer os conteúdos mais fundamentais da fé católica como forma de perversão. O celibato, seja a pessoa homossexual ou heterossexual, é uma escolha de vida profunda, calcada nesses valores centrais da fé. É viver em missão. Porque ninguém chama atenção dos santos, históricos e recentes, que viveram isso em plenitude? Transformar isso numa perversão que inevitavelmente transformará a pessoa num pedófilo ou num hipócrita degenerado é confundir a árvore com a floresta.

Concordo com tua comparação do pânico moral em relação ao rpg, às outras religiões e aos quadrinhos. Os homens buscam sempre um bode expiatório para se livrar de suas próprias neuras. Nada mais distante da justiça, da verdade, do belo e do bem. Nada mais distante de Deus. Os pedófilos tem que ser punidos com absoluta certeza. Eles traíram de forma fulcral o que existe de mais elevado na alma humana, a imaginação, a contemplação e a fé. Porém eles também merecem a misericórdia de Deus, de forma a pagar seus crimes e pecados, inclusive judicialmente e canonicamente, mas com a oportunidade de recomeçar.

Aos amigos ausentes, amores perdidos e velhos deuses!

3 comentários:

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Grande Diego,

Muito substancial seu ponto de vista...
A aventura humana é cheia de percalços e desafios.

Um grande abraço,

Hugo Marcelo

Gilson disse...

"comparação do pânico moral em relação ao rpg"

Isso é uma triste verdade. Ótima reflexão.

Gilson

Diego Genu Klautau disse...

Grande Hugo. As reflexões sempre devem ser corajosas.

Gilson, as injustiças sempre estão ligadasa generalizações irresponsáveis. Abs.

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