30 de março de 2010

Religião, Indústria Cultural e Role Playing – Parte II

Na última reflexão, falei da indústria cultural. Ao continuar nessa linha, penso ser importante dizer o que é isso. No livro a Dialética do esclarecimento, de 1947, os filósofos alemães Teodoro Adorno e Max Horkheimer, demonstraram como o conceito de cultura[1] (aquilo que nos diferencia da natureza, o que produzimos como bens simbólicos e imateriais, como a linguagem, a arte, a culinária, a política, a religião), está influenciado pelo capitalismo como forma de dominação de uma classe superior, a burguesia, que domestica a classe trabalhadora urbana com pedaços de entretenimento que iludem a dão vazão aos anseios humanos de forma alienante.

Em outras palavras, te dou um sonho pelo seu trabalho duro, forçado. Enquanto você fizer as coisas do jeito certo, deixo você ver televisão e cinema para você esquecer seus sofrimentos e injustiças cotidianas. Eis a indústria cultural.

E como o Role Playing[2] é resultado da Indústria Cultural, podemos dizer que nós estamos no meio dessa conversa. Quem joga há muito tempo sabe o quanto de vazão e descarrego podemos fazer num Role Playing. É terapêutico, de verdade, inclusive com elementos de psicodrama, técnica desenvolvida pelo psicólogo Jacob Moreno. Tratar de suas tensões cotidianas, e ao mesmo tempo de traumas profundos da história pessoal com certeza é um dos fascínios que o Role Playing exerce nos grupos.

Porém, nessa linha de indústria cultural, o que existe é uma dominação. Uma forma de dormência, e não de libertação. Como temos empregos mesquinhos, somos intelectualmente medíocres, afetivamente covardes, emocionalmente isolados, vivemos uma vida onde não nos realizamos, não abordamos as questões diretamente, com o objetivo terapêutico de resolvê-las, mas apenas nos drogamos com motivo de fugir da dura realidade, que por sinal favorece a uma elite que nos quer assim.

Pois bem. Crítica dura. Ao invés de irmos ás fontes literárias e artísticas fundamentais, apenas nos contentamos com gotas pasteurizadas e enlatadas do resumo do resumo. Afinal de contas, quantos que jogam Role Playing medieval já leram algum livro do ciclo arturiano, autores como Chrétien de Troyes ou Béroul, do século XII? Ou leram a Ilíada e a Odisséia do Homero? Quantos leram os livros de Tolkien? (não vale O Senhor dos Anéis, que é uma ponta do iceberg). Quem gosta de Vampiro: a máscara e leu o Bram Stoker ou a Ane Rice e estudou historicamente o Drácula? Quem gosta de Mago: A Ascensão e leu A Tempestade e Sonho de uma Noite de Verão de Shakespeare, Fausto de Goethe, ou investigou os fundamentos do tarô de Marselha?

Não temos obrigação disso, é lógico. Afinal o jogo é uma diversão. E quem disse que isso é bom afinal de contas? Se conseguirmos dar risada e relaxar o suficiente para levantar e ir trabalhar na segunda-feira, atingimos o objetivo de um bom Role Playing.

Aristóteles, em A Arte Poética, dividia a poesia grega em comédia, epopéia e tragédia. A primeira falava das coisas ridículas, manias inofensivas de pessoas que eram desajustadas, ou censurava comportamentos que prejudicavam a vida na pólis. A ênfase era mostrar quem era ridículo, fazer rir e nos educar através disso. A segunda era das grandes narrativas que abrangiam muito tempo, com muitos episódios e personagens, com uma variedade cósmica grande, como Homero. A poesia épica, a epopéia, era a religião grega, dos heróis, dos deuses e dos grandes feitos fundadores da civilização grega. Lá estava a jornada dos heróis[3], que era bom e virtuoso, mas que enfrentava o destino e o caos, muitas vezes o levando ao final desesperador. Era o lugar do sobrenatural, dos monstros, do maravilhoso e do fantástico.

A terceira era a tragédia. Especificamente no drama do protagonista condenado a perdição por uma série de erros e confusões. Seu destino era trágico[4], e com isso toda a cidade atingia a catarse, a purificação de suas próprias dúvidas e dilemas. Era uma forma de todo mundo chorar, se libertar de seus medos e encontrar o alívio de ainda ter uma vida, uma família e uma esperança de não ter o mesmo destino do herói trágico.

No Role Playing, existe uma chance de também podemos encontrar essas realidades da arte. Quanto mais profunda é a relação com o texto a ser criado coletivamente, com a preocupação e sensibilidade de trazer elementos profundos sobre a vida e seus dilemas, podemos nos aproximar da catarse aristotélica, e nos fazer purificar de traumas e crescer diante dos desafios da vida cotidiana, e não apenas estarmos submetidos à indústria cultural alienante, sonambúlica e esmagadora.




[1] O termo cultura tem muitas significações. Um dos registros mais antigos é de Cícero, senador romano, no sentido duplo de dizer como trabalhar (cultivar) e ao mesmo tempo de como adorar os deuses (cultuar). Assim, a cultura no sentido antigo, tem a dimensão do trabalho material (mantido nos termos de agricultura) e também no imaterial e simbólico (arte, religião e linguagem).

[2] Duas autoras que escrevem sobre isso, com visões diferentes: a Andréa Pavão, no livro A Aventura da leitura e escrita entre os mestres de RPG e a Sônia Rodrigues, no seu livro Role Playing Game e a Pedagogia da Imaginação no Brasil. As duas fazem essa relação entre indústria cultural e RPG.

[3] O Joseph Campbell, orientador do George Lucas para o roteiro de Star Wars, apresenta no livro O Herói de Mil Faces, a idéia de monomito, que é uma estrutura narrativa única em várias culturas e religiões, que mostra uma jornada específica que se repete em cada mitologia. Associando essa estrutura narrativa com a psicanálise, propicia uma teoria bem interessante de enfrentar os desafios do mundo moderno através da leitura e reflexão, ou Role Playing, de narrativas clássicas.

[4] Tragos do grego é o bode. O bode expiatório que reunia todas as neuras e violências da cidade, que condenavam artisticamente uma situação, um personagem ou um problema.

8 comentários:

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Oi Diego,

Muito interessante...
Parabens!

Hugo Marcelo

Fabi Dias disse...

Muito bom!
Depois de aprender a jogar e de sempre gostar de ler, sim, é mais legal construir a aventura!!!!!

Bjs

Daniel Coimbra disse...

Impressionante, eheh, muito bom Diego, parabéns!

: )

Penso que nas mesas de RPG sintetizamos todos os produtos culturais que consumimos e ainda colocamos um pouquinho do nosso interior, do nosso inconsciente, de nossa chama criativa.

Sendo o jogo um simulacro da realidade, nossas percepções e reações são colocadas à prova e até mescladas com as dos outros participantes da aventura, sobretudo a do mestre/narrador, que é, no fim das contas, quem contribui mais significativamente com o material imaginativo.

Esse exercício de reimaginar a realidade de acordo com as informações passadas pelo mestre/narrador e com o conhecimento próprio de cada um daria um artigo interesante, não acha?

: )

Diego Genu Klautau disse...

Hugo! Obrigado pela presença no Role Playing e no blog!

Diego Genu Klautau disse...

Fabi minha companheira. Te amo.

Diego Genu Klautau disse...

Mestre Dan. Acredito sim que a narrativa coletiva é uma forma de reinterpretar e ressignificar as mensagens da indústroa cultral, e também uma forma de liver-nos de neuras e contribuir com nosso processo criativo. O desafio é saber fazer isso, para nem fiquemos ape4nas reproduzindo a indústria cultral, sem dar vazão a grandeza de espírito, ou de ficar apenas fazendo "terapia de grupo" ou então ficar apenas numa alucinação ingênua que nos ilude.
O desafio é crescer dentro da arte. Mas vamos continuar conversando sobre isso! Vou escrever mais dessas!
Obrigado!

Gilson disse...

Bem persistente!

Gilson

Diego Genu Klautau disse...

Gilson, sê bem-vindo em nossas reflexões.
Abs.

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