25 de março de 2010

Religião, Indústria Cultural e Role Playing.

Neste fim de semana assisti ao filme, estrelado por Denzel Washington, o Livro de Eli. De fato, a fotografia é muito interessante, um filme cinza, que recupera o clima pós-apocalíptico de clássicos como Mad Max. O roteiro é até interessante, com um mundo devastado por guerras nucleares, feitas pelos próprios homens, e que novamente nos coloca em dúvida sobre a capacidade da humanidade de se cuidar.

No centro da narrativa, Eli (Denzel Washington) tem que levar o seu livro, precioso o suficiente para o ditador de uma cidade reconstruída (Gary Oldman) mate e torture pelo livro. Segundo o ditador, esse livro pode garantir poder suficiente para controlar uma rede de cidades que ele pretende construir. Em outro momento, o próprio Eli afirma que talvez a guerra possa ter sido causada pelo próprio livro, e que depois do cataclisma nuclear, as pessoas quiseram destruir todas as cópias do livro, pois ele teria causado a guerra. Tudo muito concatenado e coerente.

Porém, não gostei do ponto fundamental: O livro de Eli é a Bíblia.

Nenhum problema com a Bíblia. Como religioso e leitor da Bíblia, católico, sou até suspeito (não tenho isenção científica) para avaliar a qualidade literária, filosófica e sapiencial das Escrituras. O problema é que esse tipo de utilização padronizada e esculachada da Bíblia me soa apelação.

Claro que a indústria cultural parasita tudo, engole tudo, processa tudo. É a nossa liberdade pós-moderna. E isso para muito é sinal de liberdade. Também gosto da indústria cultural. Li revista em quadrinho, sempre joguei videogame, assisti os filmes da Star Wars, e jogo Role Playing.

Também não tenho problema da crítica à religião através da indústria cultural. A crítica da religião de forma satírica[1] (trazida à baila por religiosos populares italianos e franceses), a liberdade de imprensa (imprensa que foi inventada por religiosos católicos alemães) e a opinião pública como base da política[2] (consagrada por religiosos protestantes norte-americanos) são fundamentais. Qualquer ser humano civilizado de hoje sabe que essas coisas são saudáveis. Aprendemos a criticar e fazer as coisas mais importantes se tornarem risíveis (afinal não se levar a sério é sinal de inteligência) antes de entender de metafísica, sistema eleitoral, imposto de renda e código de defesa do consumidor.

Contudo, existem coisas melhores e piores. Penso que a utilização de elementos religiosos de forma tão explícita e sensacionalista empobrece tudo, tanto a crítica quanto os elementos religiosos. Li o código da Vinci, vi o filme e vi também o filme Anjos e Demônios. Particularmente, julgo os dois roteiros como ruins. Somente na indústria cultural que poderiam fazer sucesso. Ninguém, com o mínimo de informação mais acadêmica (não necessariamente religiosa), leva sério o Dan Brown[3].

A indústria cultural é somente um amontoado de clichês, transmitidos de forma palatável, resumido e prático. São os resumos de literatura com os quais os alunos estudam para passar no vestibular e para as provas de literatura. São “recorte e cole” da internet, que se passa o olho e as coisas estão resolvidas.

Depois do Umberto Eco, que em Apocalípticos e Integrados expõe que não adianta brigar com a indústria cultural, e nem mesmo se vender a ela, como uma forma de prostituição trágica e niilista, porque justamente ela abre espaço para todos os gostos e todas as tendências, então tudo é uma questão de aderir a sua tribo de rpgistas e comprar os livros. Inclusive em termos de literatura sobre conflitos religiosos acho ótimo O Nome da Rosa[4].

E o nosso RolePlaying? Como ele se relaciona com a indústria cultural e como é possível pensar sobre os ditos valores (tão reivindicados pela religião)? Nosso mestre Tolkien, assim como autores recentes brasileiros (como a Andréa Pavão, no livro A Aventura da leitura e escrita entre os mestres de RPG e a Sônia Rodrigues, no seu livro Role Playing Game e a Pedagogia da Imaginação no Brasil), podem nos ajudar a investigar o cross over entre indústria cultural, literatura, diversão, liberdade, reflexão e valores. Todavia, vou deixar essa questão para outro momento. Não quero provocar celeuma, ou forçar demais o paradoxo, para usar um conceito do Mago: A Ascensão, da White Wolf.

Afinal, todo mundo sabe que postagem em blog tem que ser curta. È parte do jogo.

Até a próxima.



[1] Ver o Michael Bakhitin. Cultura popular na idade média: o contexto de Rabelais.

[2] Ver o Alexis de Tcqueville. Da democracia na América.

[3] Existe uma infinidade de livros mostrando as incoerências, falhas e tolices dos livros de Dan Brown. Entre os que li recomendo o Quebrando o código, do Dan Burstein e O código da Vinci e o cristianismo primitivo, do Pedro de Lima Vasconcelos.

[4] Exemplo concretíssimo da crítica erudita à religião. Todo mundo viu o filme, poucos conseguiram ler o livro. Todo rpgista usa como ambientação de qualquer jogo de intriga na idade média, poucos sabem todas as minúcias descritas no livro. A indústria cultural reduz tudo a o debate da Igreja malvada que queima pessoas inocentes. Nada mais distante da realidade. Sobre livros mais sérios e históricos sobre inquisição indico o Francisco Bethencourt. História das Inquisições.

7 comentários:

Hugo Marcelo Barbosa disse...

Grande Diego,

Parabéns pelo post... Brilhante!!

Hugo Marcelo

Gilson disse...

Muito bom. Várias possibilidades para reflexões.

Gilson

Diego Genu Klautau disse...

Grandíssimos Hugo e Gilson. Obrigado pela leitura e pelo estímulo!

_Daniel Coimbra disse...

Muito bom Diego, você é um teórico do RPG, eheh, agora da próxima só não esqueça de avisar sobre os spoilers, ok?

Ainda não vi o filme, mas agora já sei que o tal livro se trata da Bíblia, poxa, e eu achando que era o Silmarillion...

: )

Diego Genu Klautau disse...

Grande Daniel.
Pois é "quam matou foi o mordomo!"
Como o filme já estava em andamento há um tempo, infelizmente não tenho a finesse e o carinho co a indústria cultural, e como não recebo pra proteger ninguém, revelo aquilo que me parece ser interessante.
Afinal de contas, é só procurar que a gente acha qualquer spoiler na internet hoje em dia.
Obrigado por ter aparecido!

Fabi Dias disse...

Esperemos ansiosamente pelo " O Hobbit"!!!!

Mas até que eu me distraio com o Dan Brown.

Bjoks

Diego Genu Klautau disse...

Rsrsrsr. O Dan Brown é pre se distrair mesmo!
Vamos ver o Hobbit juntos.

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